Sempre tive uma grande ligação com animais. Moramos em fazendas, tivemos cães, gatos, papagaios, até um bicho-preguiça. Ao mesmo tempo que éramos circundados por espécies mais selvagens, morcegos, aranhas, cobras e lagartos, gambás. Cavalguei como louco em bons cavalos, sem nunca cair. Em todo esse tempo, jamais uma injeção anti-rábica: no máximo uma anti-tetânica.
Mas, há sempre um dia…
Fazia, com a esposa, minha caminhada matinal pelo bairro.Ao percorrer a calçada ao longo do longo muro do clube local, um mau espetáculo: um sem teto caído no solo, envolto em cobertores. E destes escapava uma madeixa de cabelos brancos, espalhados pela calçada. Para deixar a cena ainda mais comovente, trazia sobre o peito um bonito e adormecido cachorrinho amarelo.
Fiquei desolado. E ao chegar em casa, lembrei-me de cortar os cabelos. Então refiz o mesmo caminho esperando não ver a pobre criatura. Mas, como ela lá estava, não me contive mais e tirei R$ 20,00 que achei poderem ser lhe úteis. Chamei-a e era uma velha mendiga, já conhecida no pedaço, que em alguns dias até que está bem arrumada. Em outros, como aquele, revelava-se em toda sua enfermidade e miséria. Sua idade, dissolvida pela má vida, poderia variar dos 50 aos 80 anos.
Ela acordou, e passei-lhe o dinheiro, mas também acordara o cão. Praquê! De tão pacífico e inerte saltou como uma fera sobre mim. Saltei também, mas houve um segundo de atraso. Ele triscou-me, com seus dentinhos, a parte de trás do joelho. Apenas um arranhão. Mas nunca se sabe, e a raiva não tem cura. Bastante preocupado, ainda contei o fato ao barbeiro, nordestino, que mais uma vez surpreendeu-me com sua pouca solidariedade para com os necessitados
É curioso, e triste, ver que certas pessoas de origem humilde, que já passaram também suas dificuldades e fome na vida, não sentem a mínima identificação com estes pobres, em piores condições.
– Ih,Seu Luiz, esse é um pessoal todo folgado…vive trazendo droga para uns carros bacanas que às vezes passam por aí…eu é que não tenho dó nenhum dessa turma!
Com dó, ou sem, estava preocupado e precisava tomar uma atitude, embora o cãozinho parecesse saudável. Conclusão: poucas horas depois estava no Instituto Pasteur, tomando a primeira dose de anti -rábica de minha vida. Pouca gente, pois a raiva está praticamente erradicada, e bom atendimento. Nesta última segunda também a última dose, e só então pude escrever a história.
Mágoa? Decepção pela minha própria ingenuidade? Não sei, mas, estou curado do perigo e do episódio.E não guardo agravo, nem me arrependo do que fiz. E mais, faria novamente. Só que com muito mais cuidado.