Por onde andará o meu amiguinho Carlinhos?

Ano de l991. Escurecia e o ônibus Cardoso de Almeida seguia por aquelas ruas arborizadas do Pacaembu como um marechal tomando conta de toda a rua. Dentro dele não havia nenhum lugar vago. Nós, alunos da FAAP, íamos amontoados, com nossas pastas de desenho tocando as pernas dos demais passageiros, pedindo desculpas pelo incomodo que era inevitável, tendo em vista a quantidade de material que carregávamos.<br><br>Finalmente chegamos ao nosso destino e o ônibus ficou vazio. Esperei que o coletivo partisse para atravessar a rua, foi aí que notei uma pessoinha que saltava de trás do ônibus (o mesmo vinha pendurado nas guias que ligavam o ônibus aos cabos de eletricidade).<br><br>Dirigi-me ao garotinho perguntando o motivo de ele fazer aquilo, onde estavam seus pais ou responsáveis, se ele tinha idéia do perigo que corria… Um rostinho ingênuo, claro como neve, dois olhinhos parecendo duas bolinhas de gude azuis, olharam para mim. Displicentemente me respondeu:<br>- “Não tem perigo não tia! Já “to” acostumado, vou “pra” lá e pra cá de ônibus pendurado assim. Não moro com minha família, moro na Praça da Sé, vivo com outros<br>moleques”.<br><br> Enquanto falava, o pequenino que se chamava Carlinhos me acompanhava em direção a faculdade. Ao chegar a porta ele me pediu:<br>-“Tia, deixa eu entrar com você, queria tanto ver como é essa escola por dentro!”<br><br>Minha vontade era dizer não, mas seu rostinho pidão me fez lembrar o meu filho menor que ficara em casa e que tinha a idade dele. Sem pensar muito permiti com uma condição, de estar sempre ao meu lado, não se afastar por nada e que na hora do intervalo ele iria comigo comer algo na lanchonete.<br><br>Esse acordo foi prontamente aceito e Carlinhos então passou a entrar no atelier de escultura, sempre me acompanhando. Fiquei sabendo que ele havia fujido da casa da avó e ele começou a contar sua história para mim, cada dia um pouquinho.<br><br>Passaram-se vários dias e ele empolgava-se cada vez mais, ficava sentado na porta da Faculdade e o guarda já dizia, quando eu chegava, que meu filho estava a minha espera. Seu interesse crescia em querer ajudar a lixar as madeiras, a riscar, enfim, a fazer arte. Na hora do lanche já escolhia sem cerimônia o que queria comer e eu com dó, pagava o que ele queria, mesmo que não sobrasse para o meu lanche. Comecei a trazer roupas do meu filho para ele vestir e ficar mais apresentável, mas na maioria das vezes os garotos maiores com quem vivia na praça roubavam tudo dele.<br><br>Finalmente, comecei a colocar na cabecinha daquela criatura tão esperta que o lugar dele não era na rua e sim na casa da avó que com certeza estaria preocupada com ele. Sem dizer nada, aqueles olhinhos azuis me olhavam, quase que sorrindo abaixava a cabeça meio envergonhado.<br><br>De repente Carlinhos sumiu, fiquei muito preocupada, não só eu como meus amigos de classe e até o vigia. Meu coração ficou apertado imaginando que ele poderia ter sofrido algum acidente, ou alguém tivesse feito alguma coisa ruim para ele. Cheguei a procurá-lo discretamente junto ao chafariz da Praça da Sé onde ele dizia que ficava, porém nada do Carlinhos, ninguém sabia onde ele estava.<br><br>O tempo foi passando e um dia, durante uma aula de escultura, eis que surge na minha frente um garotinho lindo, loiro, bem vestido, com um sorriso maravilhoso nos olhos azuis, tão azuis que pareciam dois pedacinhos do céu, me abraçou beijou e disse eufórico:<br>-“Tia, voltei para a casa da minha avó, já estou na escola e um dia vou estudar nesta faculdade e vou fazer tudo o que você faz com essas máquinas. Eu quero ser um artista plástico. Agora quero pedir uma coisa para você, eu quero que você me pague um último lanche para eu voltar para casa. A minha avó está me esperando lá fora”.<br><br>Essa foi a última vez em que vi aquele anjo de olhos azuis. Onde andará meu querido amiguinho?<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>