Lembro-me com saudade, muita saudade, de uma das minhas travessuras e da surra que levei por causa desse circo. Explico: no distante ano de 1952, o “Gran Circus Norte Americano” (legítimo) excursionou pelo Brasil. Em São Paulo, instalou-se no meu bairro – Vila Pompéia – em um grande terreno na Rua Sabaúna, na esquina com Rua Faustolo.
Com três picadeiros, era realmente espetacular. Tinha cinco elefantes (três adultos e dois filhotes), leões, tigres, um urso negro dançarino, cavalos árabes amestrados, trapezistas, equilibristas e palhaços engraçadíssimos. Eu era um garoto com 9 anos de idade e apaixonado por circos, paixão adquirida através das matines no circo do Piolim, vibrei de alegria.
Juntamente com Sérgio, um garoto de minha idade e meu companheiro de traquinagens, resolvemos nos aproximar dos ajudantes, para conseguir ingressos gratuitos. Após nossas aulas escolares matinais, trocávamos nossos uniformes, almoçávamos rapidamente e íamos realizar os nossos "trabalhos circenses". Fazíamos de tudo, ajudávamos a lavar os elefantes, a alimentar os leões e tigres, a conduzir os cavalos dos “carros/ cocheiras” para os picadeiros, enfim, nos metíamos em tudo.
Eu, deslumbrado com essa vida, vibrava com os ensaios dos trapezistas, dos treinamentos dos motociclistas no Globo da Morte. Nosso entrosamento com o pessoal foi tão envolvente, que parecíamos fazer parte da "trupe circense", para inveja de meus amiguinhos da turma.
Três dias por semana (terças, quintas e sábados) era realizado um desfile dos elefantes pelas ruas dos bairros próximos, objetivando anunciar o espetáculo e suas atrações. Sobre o elefante principal, que conduzia os outros, desfilava uma linda equilibrista e anões em cima dos menores. Certo dia um dos anões ficou doente e impossibilitado de desfilar. Eu estava em um dos picadeiros, acompanhando o ensaio do urso dançarino, quando o treinador dos elefantes me chamou:
– “Ei, garoto. Venha aqui”.
– “Sim, senhor”.
– “Preciso de sua ajuda. Experimenta esta roupa”.
Era a roupa de um dos anões que desfilava. Notei que era pequena para mim, pois apesar de ser mais gordo, era menor do que eu. Ficou curta em meus braços e em minhas pernas. Ele achou que "quebraria o galho", pois eu ficaria montado. Quero ressalvar que, por ajudar a banhar e limpar os elefantes, principalmente os filhotes, estes tinham por mim muito respeito e muita docilidade. O treinador reconhecia isso, pois tinha me visto sobre eles algumas vezes.
Pronto. Lá fui eu desfilar, todo orgulhoso, em cima de um dos pequenos paquidermes pelo bairro. Que alegria. Que emoção. Multidão nas ruas e meus amiguinhos me apontavam. A partir desse episódio, tomei uma decisão. Quando o circo partisse, eu iria junto. Queria fazer parte dessa vida de aventuras. Comentei isso com meu amigo:
– “Como assim? Você não pode largar sua família”.
– “Minha família vai ser do circo” – respondi.
Não sei como minha mãe ficou sabendo. Levei uma das maiores surras de minha vida e fui proibido de sair de casa, inclusive de ir à escola, até o circo ir embora, o que aconteceu uns dias depois. Livre do castigo eu corri até o terreno… Vazio. Somente as marcas de estacas no chão de terra batida.
Sentei-me, ao lado de Sérgio, na parte alta do terreno e chorei. Muito. Meu amiguinho tentou consolar-me. Não me lembro quanto tempo lá fiquei chorando e olhando para o vazio. Atualmente, assistindo aos filmes “O maior espetáculo da terra”, “Trapézio” e “Água para elefantes", recordo-me, com muita saudade, desse mágico momento de minha infância.
E-mail: [email protected]