O bicheiro da Mooca

Jogo do bicho. As viaturas pararam em frente ao cortiço na Rua do Oratório, no bairro da Mooca. Alguns rapazes que estavam próximo ao enorme portão, ao perceberem a aproximação, entraram correndo e se trancaram lá dentro. Os policiais fortemente armados desceram das viaturas e ficaram conversando entre eles por alguns minutos.

Um pouco abaixo do cortiço, do outro lado da rua, tinha o bar do Nino. Alguns fregueses saíram para a calçada e ficaram observando a movimentação. Todos sabiam que ali no cortiço funcionava uma boca de drogas e no mínimo dois ou três que ali moravam eram fugitivos da polícia. Na realidade o local era um verdadeiro antro de marginais que utilizavam o “muquifo” para o uso de drogas e para guardar mercadorias roubadas. Diziam inclusive que alguns dos cômodos eram usados como cativeiro de pessoas sequestradas pelas quadrilhas que frequentavam o cortiço. De dentro do bar o Nino gritou para o pessoal:
-“Vocês vão ficar moscando ai do lado de fora? Se eles invadirem a boca vai sobrar bala pra todos os lados! Ouvi dizer que os vagabundos ali do cortiço têm até metralhadora!”

O pessoal entrou, porém alguns deles ficaram olhando pelo canto da parede, junto à porta, tentando assistir ao desfecho da suposta invasão policial:
-“Até que enfim a polícia tomou vergonha na cara e vai acabar com a safadeza que vem acontecendo ali naquele cortiço!” – esbravejou o ‘Seu’ Nerino.

Os policiais prostraram-se junto ao enorme portão e continuaram conversando entre eles, tramando, talvez, qual a melhor maneira de invadirem a maloca. Depois de alguns minutos de confabulação atravessaram a rua em direção contrária e invadiram a casa do seu Nonô, um senhorzinho de 82 anos, que fazia apostas do jogo de bicho na área coberta junto à sala de sua casa. Logo em seguida saíram com ele algemado e o colocaram em uma das viaturas.

O pessoal que estava no bar correu em direção aos policiais, na tentativa de socorrer ao pobre ancião. Não teve conversa. Ele estava sendo detido por contravenção, explicou um dos soldados. E enquanto as viaturas saiam cantando os pneus em direção ao Distrito Policial, alguém ligou para o Pedrinho, que era o banqueiro da área, para avisá-lo que o ‘Seu’ Nonô havia “entrado em cana”.

Logo a rua se aquietou novamente. Os rapazes do cortiço abriram o enorme portão e tudo voltou ao normal:
-“Pouca vergonha!” – esbravejou o ‘Seu’ Nerino, que após cuspir na calçada, voltou ao seu canto e continuou bebendo a sua cerveja.

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