Brasilândia da minha querida avó

Era eu um menino tímido de família simples, morador na Vila Brasilândia nos anos 70, onde pouco nos tínhamos para nos preocupar, pois a vida para a minha idade era tranquila, despreocupada, como era a vida de toda criança, e também inocente.

Entre os primos e primas havia um momento de terror. E esse terror era a minha avó. Não que ela fosse ruim, de forma alguma, ela só era enérgica e sincera ao extremo. Usava um cachimbo, e só com a baforada e seu olhar ela impunha respeito a todos, adultos e crianças…. Mas também era bastante amorosa.

Nosso maior terror era ser escalado para sair, dar um passeio com esta bela senhora. São Paulo era diferente de hoje, já com lanchonetes, bares e uma diversidade de locais para fazer uma refeição rápida, mas minha querida avó tinha como habito (e/ou também necessidade), levar para qualquer lugar que ela fosse e que sugerisse demora, uma “marmita” a qual alimentava a ela e servia também para aquele que houvesse sido escalado para ir junto.

Aproveito para aqui enobrecer o caráter de minha avó que já não se encontra mais conosco, era talentosa, de nobre caráter e dona de seus atos, respeitadora, mas não levava desaforo para casa.

Mas enfim pessoal… Chegou o meu dia de acompanhar a minha querida avó. Eu tinha por volta de nove anos, e ainda não sábia eu, o que era passar vergonha. Até aquela data.

Bem iríamos até o então chamado na época INANPS (Instituto Nacional de Assistência Médica Previdência Social), o que ela iria fazer ali eu não me recordo, só me lembro que havia muita gente na fila e após um período em pé e sentado, percebi que a bela senhora (minha avó), começou a se acomodar de forma mais aconchegante, abriu uma sacola e de lá retirou a “marmita”!

De certa forma me assustou… Eu conhecia os boatos! Retirou a tampa do objeto que continha arroz, feijão e como se só houvesse ela na rua começou a se alimentar, fazendo o uso de um talher e comia com uma vontade, passando a impressão de que a refeição estava saborosa e que veio em boa hora. Logo ordenou que me acomodasse ao seu lado, pois era hora de eu fazer uma breve refeição.

Mudo eu estava e mudo fiquei diante da cena… Quando de repente, vendo ela que eu estava sem ação, não respondendo a sua fala, se levantou e deu um berro:
– “Menino cachorro, tá com vergonha de comê cá vó? Tem qui tê vergonha de robá, seu safado”.

E levando a mão aberta, com certa violência em direção a região de seu órgão reprodutor completou:
– “Ocê saiu daqui ó”

Não me de recordo ter participado com ela da tal marmita e também não sei como sai daquele lugar.

E-mail: [email protected]