Por opção, desde menina fazer Belas Artes era escolha garantida. Venho de uma família onde a arte já esta contida no DNA. Alguns, como eu, aperfeiçoam no banco da escola e outros apenas desenvolvem no caminhar da vida.
Minha mãe era dona de bela caligrafia, apesar de ter feito apenas o primario de outrora, mas se encantava com a filha que desde pequena demonstrava "queda" pelo traçado. Enquanto garotinha ainda, lá pelos meus cinco ou seis anos, orgulhava-se em mostrar a quem estivesse interessado os coloridos desenhos da filha. Quando eu estava mais crescida, creio que com 12 ou 13 anos, optou por me colocar em classes particulares para então iniciar pinturas mais expressivas e assim poder emoldurá-las.
As principais paredes da casa já tinham lugar certo para a exposição da artista. Na época em que se discutia qual carreira deveria seguir não tive duvida quanto à área a ser escolhida, ainda mais que pude unir o local, pois anos antes em companhia de uma prima, por parte de meu pai, que veio de São José do Rio Preto, tentar vaga em um de seus cursos.
Fui escolhida como acompanhante e assim entrei pela primeira vez no antigo prédio instalado na Avenida Tiradentes, ao lado do Jardim da Luz. Creio que viviamos o ano de 1967 ou 1968. Fiquei encantada, aquela escadaria de madeira, aquele corredor comprido onde duas grandes estátuas, uma era de Vênus, me recepcionavam, para meu encanto.
Enquanto admirava todo o seu interior minha prima se envolvia na secretaria com as informações sobre os cursos, já que também seguiria o mesmo caminho que anos depois eu trilharia.
Ao retornarmos minha escolha já havia sido fechada. Iria fazer A Faculdade de Belas Artes no antigo predio do Liceu de Artes e Oficio, como estava grafado em mosaico na calçada enfrente ao portão de ferro maciço que havia na lateral, entrada oficial da faculdade. E assim, dez anos depois, no ano de 1979 me formei em Artes Plásticas com especialização em Desenho Industrial.
Em um desses anos, na rodada cultural em São Paulo, sabendo que lá estaria inclusa a abertura do Museu me convidei para este belo passeio. Não levei mais ninguem porque queria percorrer cada sala em silêncio, cada corredor e junto com minhas lembranças admirar as obras e corais que lá se apresentavam para deleite de todos. Em alguns corredores onde o espaço permitia ter um olhar com a natureza a volta podia ouvir os sons oriundos de um passado recente onde as aulas e meus colegas de turma se misturavam com a realidade atual. Procurei pelas grandes estatuas e lá estavam imponentes a me saudar. A lanchonete interna já não existia mais, aonde nós alunos, juntos, ás vezes, com as modelos, que trajando apenas um jaleco para cobrir o corpo nu das aulas de desenho, em conversas diversas discutiamos sobre linhas, sombras, traços e cores.
Lembro me de uma modelo em especial, que tinha um sorriso plácido, pele alva e corpo magro. Outro dia, olhando uma revista com data vencida, li uma reportagem sobre esta nobre e pouco valorizada profissão, e me chamou a atenção, pois lá estava ela, tenho certeza que a reconheci pelo sorriso. Com olhar fixo na foto deixei que minha memória a localizasse no balcão da antiga lanchonete, a participar de nossas conversas barulhentas e com uma xicara de café forte e doce, como gostava de frisar. A reverenciei com orgulho e saudade desta parte de mim que tão gostosamente pude viver, numa época aonde tudo era cores formas e testuras sem sombras de duvidas.
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