Quanto conto que trabalhei em criação de propaganda, por várias décadas, tem gente que pergunta – mas como era isso? – É verdade que vocês eram todos loucos, usavam cabelos compridos e tomavam drogas, para se inspirarem?
Não é nada disso, embora houvessem casos extremos, vedetes tresloucadas. Mas estes caiam nas próprias artimanhas, e cedo ou tarde eram rejeitados pelo sistema, que investia muito dinheiro para estar a mercê de modismos irresponsáveis.
Vou citar um exemplo de um trabalho criativo que deu certo com, para mim mesmo, impressionante rapidez. Eu trabalhava na grande agência em formação na R.Gen.Jardim, como contei em "Milagres do dia -a -dia."
E fazia dupla com o famoso Sylvio, de quem também falei em "A Velha Serpente". Vejam que já falei um bocado, mas não de trabalho.Então vamos lá.
Eu estava, como sempre, muito ocupado. Nossa principal conta era a Fiat,e não sei em que estava pensando para ela. Foi quando Armando, um dos sócios, chamou-me ao andar da Diretoria. Fui, sozinho e a contragosto, pois não queria quebrar minha linha de pensamento.
Expôs o problema, e era sério. Precisávamos fazer um calendário para a Tecelagem Santista, em concorrência com outra empresa. E tinha de ser para amanhã!
Se bem sucedido, a conta seria nossa.
Ainda com meio cérebro na Fiat, comecei a pensar, enquanto Armando folheava anuários, em busca de inspiração.
A imagem que me surgiu foi de uma moça vestida de negro, desfiando uma teia. Eureka!
– É Aracne, eu disse. A mortal que desafiou os deuses e foi transformada em aranha!
Aí o tema surgiu inteiro, imediatamente: a mitologia grega. O fio de Ariadne, que salvou Teseu do labirinto do Minotauro; Penélope a tecer eternamente seu manto, à espera de Ulisses; as Três Parcas, fiando o Destino… e por aí a fora. Em instantes, a campanha estava pronta.
Mas não acabada.- E como faremos, disse-me o patrão, como ter tudo isso pronto amanhã?
Por sorte, havia na biblioteca de minha agência anterior uma bela coleção de Mitologia, da Abril.
E o diretor de arte que me sucedera era um amigo.
Liguei para ele, apanhei os livros, levei-as ilustrações para fotografar no laboratório, e aí faltavam os meses do ano, que já tínhamos até compostos. Tudo isto montado num belo fundo prateado, e pronto!
No dia seguinte o calendário foi ao cliente e ganhamos a conta! Parece fácil,não?
Mas nem sempre as coisas decorrem tão bem, então termino com mesmo fecho de "Milagres do dia a dia": – Ah,se a vida fosse sempre assim!