Independente do que fosse feito durante boa parte do dia, aos domingos, ao meio da tarde, nossos pais, eu e meus irmãos visitávamos nossos avós maternos na Vila Ipojuca. Eles moravam na Rua Sepetiba, em um sobrado vizinho à uma padaria, que curiosamente não era de esquina, ficava no meio de um quarteirão imenso.
A maioria dos irmãos e irmãs da minha mãe com suas famílias faziam o mesmo programa de visita aos pais e a casa parecia em festa com tantos netos e adultos reunidos.
Ao entrar da noite as famílias iam se despedindo com destino às suas residências, às quais ficavam em bairros ou vilas próximas à Vila Ipojuca.
Nós morávamos na Lapa de Baixo, mais precisamente no cruzamento das ruas Tenente Landy e Moxey. Como naquela época os transportes eram raros, fazíamos o percurso a pé e a distância era relativamente grande, principalmente para nós crianças.
Nas proximidades das porteiras das vias férreas, nosso pai colocava a mão no bolso da calça e retirava o dinheiro previamente contado e separado da carteira e entregava para mim ou para o meu irmão.
Nós dois saíamos correndo, atravessávamos as linhas dos trens e entrávamos felizes na pastelaria próxima ao Cine Recreio.Chegávamos no exato momento da última fritada de pastéis que antecedia o início da seção das 20h do cinema.
Todos os domingos era a mesma rotina. O chinês prontamente colocava enfileirado numa bandeja de papelão uma dezena de pastéis, sendo cinco unidades de palmito e cinco de queijo. Nosso pai não permitia que comêssemos os de carne.
A bandeja era embrulhada com papel manilha de cor cinza e amarrada com um barbante rosa de forma achatada, retirado de um grande carretel transpassado por um arame preso na ferragem da vidraça do balcão. Pagávamos os pastéis e saíamos em disparada para encontrarmos nossos pais e irmã já bem próximos de casa.
Enquanto tomávamos banho e colocávamos o pijama, nossa mãe preparava um incomparável café com leite na temperatura exata para ser tomado com os pastéis. Cada um saboreava um de queijo e um de palmito.
E antes das 21h30min, com os dentes escovados, já estávamos na cama quentinha para uma boa noite de sono e bem alimentados.
Décadas passadas, não mais sendo morador da Lapa de Baixo e bem adulto, certa vez, entrei na mesma pastelaria. Que pena… Nem o barbante era parecido com o antigo!
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