Beisebol americano em São Paulo

Antes de vir para os Estados Unidos em 1981, eu residia no Brasil. Revendo velhas fotos encontrei a minha foto quando eu jogava beisebol ai no Brasil. Por mera curiosidade, busquei na internet algo relacionado ao beisebol brasileiro e encontrei alguns artigos. Um deles, Beisebol do Brasil – Wikipédia, a enciclopédia livre – fala sobre o beisebol no Brasil, mas – curiosamente – não faz nenhuma menção ao que se passou entre 1946 e 1950. Foi então que resolvi escrever sobre isso.

No fim de 1950, Eu pertencia a um time chamado “Cometa”, no bairro do Tucuruvi em São Paulo. Era um grupo de filhos de japoneses, feirantes, que tinham a paciência de nos ensinar o jogo. Treinávamos aos sábados e jogávamos aos domingos. Eu, como era o mais alto da turma na época (1.80 m), fui escalado e treinado para jogar na primeira base. Eu não tive tempo de treinar o bastante para ser considerado um bom jogador. Fui um atleta médio/medíocre nesse esporte. Mas gostava, e muito, dos meus colegas jogadores, que também não eram lá grande coisa. Mas tínhamos entusiasmo e paixão pelo beisebol. Sabíamos que os times fortes na época eram o “Coopercotia” e os “Piratas”, se estou certo.

Não me lembro como aconteceu mais o “Cometa” foi convidado a emprestar alguns jogadores para formar a "seleção" para jogar contra os “Americanos”. Eles vieram com o nome de Columbia em seus impecáveis uniformes. Isto aconteceu em 16 de Agosto de 1951 e o jogo iria ser realizado no único campo (publico) de beisebol no bairro do Bom Retiro que se chamava, se minha memória não falha Campo de Beisebol do Capitão Padilha, provavelmente Silvio de Magalhães Padilha.

Na realidade fui escalado pelo meu técnico não pela minha habilidade de jogador, mas por ser alto, por não ter os olhos "puxados" e por falar inglês. Um "brasileiro" no time seria uma boa publicidade. Na opinião dele eu poderia traduzir o que os americanos falavam (triste ilusão). Fui escalado para jogar um "inning" e assim aconteceu. Os americanos, como não poderia deixar de ser, nos deram um verdadeiro "baile". Mas isso foi parte do espetáculo. Minutos antes desse jogo, um "cameraman" do "Jornal Bandeirantes da Tela", do Primo Carbonari, apareceu para filmar o evento. Ele não sabia nada do jogo, pois afinal era meio inédito para a impressa.

Ele e seu assistente de câmera vieram até mim achando-me mais "brasileiro" do que os outros. Pobre ignorância. Eles não sabiam absolutamente nada sobre beisebol. Não sabiam o que filmar. Eu disse, filme a bola. Onde a bola for ai estará sua câmera; mantenha seu foco na bola. Assim eles fizeram.

Naquele tempo era difícil ter uma máquina fotografia e eu não tenho fotos a respeito. Porém, um pouco antes de tudo começar os americanos nos deram uma foto deles. Nesta foto tem como fundo um cartaz do Guaraná da Antarctica. Cada um deles teve a gentileza de autografar nas costas da foto. Um deles, por brincadeira, assinou "Joe di Magio" faltando um "g". Isso foi simples gozação e nós não descobrimos qual deles assinou o famoso nome. Revendo essa foto, estou tentando escrever para muitas entidades com o nome de Columbia o que eu penso ser um time da South Carolina. Quem sabe alguns dos meus colegas do Cometa ainda estejam vivos para fornecer mais detalhes sobre os americanos e todos nós da época.

O filme do “Bandeirantes da Tela” foi programado para aparecer em alguns cinemas. Eu soube o cine Art Palácio, na Avenida São João, estava exibindo esse documentário. Eu, meus pais e minhas irmãos seguimos afoitos para o cinema. A reportagem foi curta, pois adivinhamos que aquele assunto não era de grande interesse ao público. Contudo eu estava lá e minha família vibrou vendo-me no filme.

No final de 1951, tentando pegar uma bola que veio com muita força direto para mim na primeira base, o cordão de couro que entrelaçava o dedão com os quarto dedos da luva rompeu-se. A luva da primeira base era diferente das dos demais, facilitando para pegar a bola. A bola, zunindo, passou pela luva e foi direto no meu nariz. Com o impacto eu desmaiei. Fui socorrido e voltei para casa naquele dia com o rosto do tamanho de uma bola de futebol – roxa. Com efeito, minha mãe proibiu-me de continuar jogando. Em 1956 fiz uma rinoplastia para consertar o meu nariz que ficou novo em folha.

Em 2005, em minha última viagem ao Brasil, resolvi procurar pelo filme do Primo Carbonari. Gostaria de ter uma cópia e eu estaria disposto a pagar o que fosse necessário. Gastei uma pequena fortuna de táxi para baixo e para cima na cidade de São Paulo. Finalmente, encontrei um lugar Cinemateca Brasileira situada no Jabaquara ou Vila Clementino não sei bem. Falei com o encarregado e fui informado de que todos os documentários intitulados "Bandeirantes da Tela" estavam numa sala, todo cortados em pequenos pedaços.

Fiquei pasmo. Ele levou-me até uma pequena sala e lá estavam, um enorme monte de pedaços de celulóide, não mais de 10 centímetros de comprimento. Perguntei o motivo e ele informou que os políticos da época retalharam os filmes e tiraram suas partes para eles próprios. Voltei para o meu hotel sentindo-me pobre.

Espero ter colaborado com este pedaço da historia do beisebol no Brasil.

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