Ela não era apenas flor. Era Flor de Liz. Mais ainda, era do Prado e chamava-se Maria. Maria Flor de Liz do Prado, um lírio do campo, cujo nome, pelo seu toque de nobreza, assombrara aqueles garotos do quarto ano da Escola São Teodoro de Nossa Senhora do Sion, aqui em Vila Maria, no longínquo ano de 1946.
Eles haviam sido os alunos pioneiros do "colégio", como ficou conhecida esta escola e ficaram perplexos ao conhecê-la. Para eles, aquele nome sugeria que teriam diante de si, uma sisuda senhora, mas, para seu pasmo, apresentaram-lhes uma mocinha, pouco mais que adolescente, de profunda e terna simpatia e sorriso encantador. Espontânea, a cada momento, deixava a impressão de que jamais estivera mal com a vida ou consigo mesma. Olhos vivos, rosto redondo, com covinhas quando sorria e, se não me falha a memória, um pouco sardentinha. O nome no diminutivo, com que era tratada, além de revelar o carinho que tínhamos por ela, referia-se também, simultaneamente, tanto á sua pouca idade quanto á sua estatura.
O colégio foi inaugurado em 1942, na Rua Simão Borges, depois rebatizada para Mère Amédea, em homenagem à primeira madre superiora. Àqueles garotos cabia o mérito de terem, eles próprios, cavado e aplainado o terreno dos fundos da escola, que lhes servia de campo de futebol. Ao redor do campo, foram plantadas touceiras de capim-limão (capim santo), que o povo também chamava de capim-cidreira. Espaçadas três a quatros metros, ali se plantaram também alguns exemplares de paineiras.
Às oito horas começavam as aulas. No pátio os garotos (as meninas tinham aulas à tarde) envergando o tradicional uniforme de brim caqui, eram colocados em fila, por classe, cada qual com sua professora e assistidos pela enérgica e saudosa irmã Gilda.
Na sala de aula, feitas as orações matinais, tirávamos da maleta um pedaço de pano retangular de algodão alvejado, com um orifício no canto direito e muitos cadarços. Era a capa da carteira. Esticávamos a capa, amarrando as extremidades livres dos cadarços na estrutura de ferro fundido da carteira, deixando o orifício sobre a boca do tinteiro. Sobre a carteira colocávamos o parco material escolar de que dispúnhamos, ou seja, três cadernos (linguagem, desenho, e caligrafia), um lápis preto (numero 2), uma caixinha de meia dúzia de lápis de cor "Johann Faber", dos pequenos, que não conferiam aos nossos desenhos as mesmas cores ostentadas na embalagem pelas árvores e, no meio delas, a índia com uma arara no braço.
Tínhamos pelo menos duas canetas. Eram nada mais que uma haste de madeira, com um encaixe metálico especial para as penas. Neste ponto éramos muito exigentes. Em uma caixa de fósforos guardávamos um razoável estoque de penas, as comuns e outras mais finas, chamadas "mosquitinho", pelas quais tínhamos predileção. Pelo que posso me lembrar, neste nível já não se usava cartilha. Havia pequenas brochuras, de leitura, cartografia, história.
Terminados estes preparativos, Dona Mariazinha dava inicio à aula. Sabia como prender nossa atenção, falando com graça e propriedade sobre diversos assuntos. Gostávamos muito quando ela falava sobre os índios. Quem mandava mais era o cacique, que também era chamado morubixaba. O pajé, que era, simultaneamente, sacerdote e curandeiro e também mandava um pouco. Moravam em ocas, em torno da ocara. Guerreavam com o tacape, a borduna e o arco e fecha (que também servia para caçar). Adoravam Tupã e acreditavam em muitas lendas. As crianças índias apenas brincavam e nadavam nas águas transparentes dos rios. Ouvindo tudo isto cada um de nós fantasiava, em um sonho acordado, suas aventuras de curumim
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Tudo que dona Mariazinha ensinava nos encantava, mas tudo tem um "porém", quando nos víamos livres, certamente éramos aquilo que se poderia chamar de “capetas”. Muitas vezes, cedinho, íamos ao futebol. Ela sorteava os jogadores e formava as equipes. Sob uma das paineiras, à margem do campo, ainda pequena, ela apitava o jogo, não se furtando a admoestar os infratores. Porém, dificilmente escapava de um banho. Os moleques que estavam no "banco" não perdiam a oportunidade de puxar um ramo da paineira que a abrigava, ensopando-a com o orvalho. Apesar destas e de outras, nunca a vi "perder a esportiva"; pelo contrário, ria muito da brincadeira e, que me lembre, ninguém foi à diretoria por isso. Ela era assim… Cândida como um lírio.
Um dia, em 1949, no meu primeiro emprego, em uma loja de ferragens e utilidades domésticas da Rua General Carneiro, alguém comprou um presente de casamento. Encarregado de entregá-lo peguei um bonde na Praça da Sé e me dirigi ao Belenzinho. Subi ao quarto andar de um edifício na Avenida Celso Garcia, próximo à Rua Catumbi. Toquei a campainha, a porta se abriu e ela própria me recebeu. Tinha o mesmo sorriso e a simpatia de sempre. Eu, muito acanhado, (os adolescentes são, geralmente, "envergonhados"), entreguei-lhe o presente que ela recebeu contente, a sorrir. Estava feliz porque ia casar-se e também porque (pensei) sempre estivera feliz
Obrigado, dona Mariazinha Flor de Liz do Prado, nós, os meninos de 46, não te esqueceremos jamais.
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