Porque hoje é sábado…

Nos anos 60 o programa aos sábados de estudantes pobres e moradores de pensão como eu, era mais ou menos padronizado. Depois de uma semana às voltas com aulas, trabalhos de pesquisa, biblioteca e estudos, dormíamos um pouco mais no final da semana. Se não houvesse compromissos com a namorada, nova soneca após o almoço. À noite banho, barbear bem feito, perfume barato e o terno já meio surrado, ia de bonde ou ônibus para o centro da cidade.

Eu descia sempre nas proximidades da esquina famosa das avenidas Ipiranga e São João, celebrizada na bela canção de Caetano Veloso. Os cinemas de minha preferência eram o Ipiranga, o Marabá ou Metro, sempre com a exibição de bons filmes. Havia ainda o Ritz, Brodway e Art Palácio na Avenida São João e o elegante Marrocos na Rua Conselheiro Crispiniano, e mais alguns, todos muito próximos um do outro. Ah! O chiclete Adams ou os dropes no bolso eram imprescindíveis.

Depois da sessão, uma passada pelo Salada Paulista ou pelo Bar Jeca para um reconfortante e saboroso lanche, acompanhado de 7UP (“Sevenup”) gostoso refrigerante da época. Comprava o jornal de domingo, já nas bancas, para ler no dia seguinte. A viagem de volta, sempre mais triste e cansativa, em que não se tem outro desejo senão o de chegar depressa ao quarto simples, mas limpo e confortável da pensão. Deitava-me ficava pensando, serenamente pensando em algumas cenas do filme, na beleza e sensualidade das atrizes ou nas proezas do herói para finalmente adormecer.

Relembro estas coisas tão ingênuas com profunda e suave melancolia, certo de que momentos como esses são irrecuperáveis. Quero e pretendo firmemente que eles não me tragam nem tristeza excessiva, nem amarguras incontroláveis, mas que sejam encarados simplesmente como doces e inesquecíveis lembranças de um tempo que já se foi.

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