Mosca branca

Em uma das raras vezes em que pude passar o final de semana inteiro na casa da vovó, fiquei surpreso ao ver chegar um jornal entregue na porta e de graça. Era o “Shopping News”, acho que um dos precursores em alavancar as vendas do comércio paulistano.

Meu tio Olavo Ferrari estava planejando há tempos comprar um veículo que fosse bom de mecânica e com um preço razoável. Tarefa difícil naquela São Paulo cheia de carros gastos pelo uso e, em geral, ex-carros de praça e de manutenção cara, pois eram importados. Eram milhares de Chevrolets Fleetline, Belair, Sedanette, Fords sedans e coupés, Mercurys, Hudsons, Chrysler, Dodge, Packards, Pontiacs, Nash, Studebaker, Vauxhall, Morris e outros mais. De nacional só tinha a simpática Romi-Isetta, a camioneta Chevrolet Brasil e DKW, mas todos com produção incipiente. Meu tio debruçava-se concentrado no jornal para achar uma boa oferta. Usava um lápis para ir marcando o que lhe interessava. Até que levantou a voz para anunciar uma "mosca branca".

Parecia que havia achado ouro! Fiquei algum tempo acompanhando a leitura do anuncio em voz alterada, até que não me segurei mais e o interrompi, que mosca era aquela? E branca? Perguntei:
“Tio, está passando bem? Quer uma Cafiaspirina?”
E ele, mais calmo e com toda a calma que lhe era peculiar, explicou detalhadamente que se tratava de um carro raro, de grande conservação, que teve poucos donos, por isso a denominação esquisita.
Repliquei:
“Tio, fiquei na mesma, o que a mosca tem com o carro?”
E ele com paciência de monge (que quase foi, mas desistiu do seminário) explicou-me que uma mosca branca era algo muito difícil de se ver, portanto um carro raro era o mesmo que mosca branca.

E assim desde aquela data jamais esqueci esta denominação. Até hoje procuro uma mosca a meu modo, na base da sátira, como uma Mercedes Bens zero km de cor de abóbora. Pouco provável de existir…

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