Uma experiência pessoal

O filho do senhor Artur, velho professor da Penitenciária do Estado de São Paulo, o Zeca, era muito pândego e andava comprando uns maços de cigarros às escondidas. Ora Macedônia, ora Sudan Oval; outras vezes, Mistura Fina, Fulgor, Yolanda, Continental e tantos outros, todos “quebra peito”, na venda do Anastácio.

Visto tal ação, os pretensos iniciados no vicio ao seu redor, também tinham a mesma compulsão, porque a boca pequena, a molecada dizia que quem não tragasse não era homem. Tal afirmação mexia, com o brio de todos nós. Ali ninguém era maricas. Todos se achavam machões e por isso deveriam experimentar a tal tragada.

O João Badico, filho do proprietário da venda, um pouco mais velho do que nós, já puxava um pito sentido, soltando baforadas por todas as ventas possíveis e imagináveis do corpo:
– “Puxa, esse exercício da tragada nos levará com certeza, ao mais alto conceito dos mais velhos, a uma condição de verdadeiros homens”, pensávamos nós.

E foi assim, baseado nessa atitude machista estúpida, que resolvi também colaborar com a tal tragada. Mas como fazer? O Badico, maior especialista de todos, nos ensinou:
– “Você a principio vai sentir um pouco de tontura, às vezes náuseas e um pequeno revertério no estômago, mas depois, acostuma”, sábia reflexão de quem há muito tempo já havia apreendido sobre o vicio.

Uma tarde, na Praça Ramos de Azevedo, ao lado do Teatro Municipal, estava eu envolto em pensamento, esperando na fila do ônibus, quando tirei num gesto mecânico do bolso de dentro do paletó, um cigarro Fulgor, sem adição do filtro. Bati como era de praxe no maço para assentar a nicotina e também para mostrar aos outros da fila, que eu já era um experimentado veterano do vicio. Ledo engano! Os adultos que estavam na fila nem repararam naquele gesto masculino. Mas eu precisava de uma prova concreta. Eu tinha que reafirmar a minha masculinidade perante a populaça machista da fila do ônibus. O gesto foi mecânico. Estufei o peito, cigarro na boca, olhar decidido em volta de mim mesmo e um fósforo riscado já acesso, e eu já estava a um passo da minha afirmação. Mas como fazer? O cigarro já estava queimando e eu ainda não tinha coragem de jogar a fumaça garganta abaixo.

Lembrei-me dos ensinamentos do experimentado Badico. É só aspirar e pronto! Tomei uma dose de coragem e lá fui eu. No inicio aquilo entrou garganta adentro, passou pela laringe, pela traquéia, pelos brônquios, bronquíolos e foi até os pulmões. A reação do organismo foi imediata. As células ainda virgens do intruso veneno da nicotina no sistema sangüíneo se agitaram, tentando de várias maneiras expulsar o objeto estranho em seu meio ambiente interno através da náusea, do vomito e da tontura. O Teatro Municipal parecia que tinha virado de cabeça prá baixo. Tive que apoiar-me num poste de iluminação ali existente para não cair. Num relance de tempo, mais uma vez, lembrei-me dos sábios ensinamentos do Badico: uma sensação de enjôo e náuseas, depois a tontura. Ali, estava efetivamente se instalando o vicio do cigarro.

Agora sim, eu podia exibir com orgulho, aquela sensação de plenitude, de conquista da masculinidade. E foi assim que o vicio me acompanhou por muitos anos. Como na época eu trabalhava junto aos hospitais, todos os anos eu tirava por minha própria conta uma radiografia dos pulmões. Contatava os radiologistas e pedia que tirassem uma chapa dos pulmões. Uma das últimas vezes que tirei uma radiografia foi no Hospital dos Servidores Públicos Municipal na Rua Castro Alves, no bairro da Liberdade.

Para a minha surpresa a chapa estava separada das demais. Eu tinha que esperar o médico radiologista chegar para que ele pudesse me traduzir o que estava escrito na chapa: "Hiper Transparência Pulmonar com Abaixamento das Cufulas Frênicas".
“Reprovado". O que seria isso? Quando o médico me avistou e viu que eu não era candidato a nenhuma vaga no funcionalismo publico municipal foi logo dizendo:
– “Vou colocar apto!”
– “Muito bem doutor, mas eu gostaria de saber o que o senhor achou na minha radiografia?”
– “O senhor fuma?”
– “Sim!” respondi.
– “Quantos cigarros por dia?”
– “Em média uns trinta”.

Ele me olhou atentamente e perguntou a minha idade. Na época, eu estava com a idade de Cristo, trinta e três anos:
– “Vou lhe dar um conselho. Daqui mais alguns anos, lá pelos sessenta, você provavelmente estará com um balão de oxigênio no nariz. Terá grande dificuldade para articular as palavras e deficiência no ato de respirar. Será uma constante no dia a dia além de cansaço ao menor esforço físico. Enfim, será uma lenta agonia até o final da vida. A escolha é sua”.
-“Afinal, o que eu tenho doutor?”, a resposta veio lacônica, sem rebuços, na
lata:
– “O senhor está com um começo de enfisema pulmonar! Ou para agora ou morre em breve. A escolha é sua”.

E ele tentando usar da psicologia, pediu-me um cigarro. Colocou na boca, olhou para a radiografia a sua frente, e devolveu-me sem acendê-lo dizendo:
– “Acho que também vou parar de fumar”.
– “Pura psicologia”, pensei.

Eu parei? Não! O vicio era muito maior, bem mais forte do que o medo. Continuei com o cigarro por mais dez anos ainda. Quando um dia comprando dois maços por um cruzeiro cada, a inflação era de oitenta por cento ao mês e estava corroendo o meu orçamento. Estava decidido que deveria abandonar para sempre o vicio. Com plena consciência e determinação eu estava efetivamente determinado a largar de vez, o ato tabagista. Refleti quanto o governo ganhava em cima de cada maço de cigarros comprado e consumido. Oitenta por cento em tributos e eu estava na perda da minha capacidade pulmonar cavando cem por cento, a minha própria sepultura.

Não foi tão difícil a melhor escolha da solução para o problema. Largar de vez o vicio. Assim que consegui ficar um dia inteiro sem fumar, pensei com os meus botões:
-“É agora ou nunca mais!”

Hoje, já livre definitivamente do vicio e pensando melhor como adulto, éramos crianças, estimulados pela propaganda enganosa do cinema, dos anúncios charmosos e estampados nas principais revistas da cidade, dos galãs da televisão tirando a cigarreira de prata ou dourada e exibindo ostensivamente o seu conteúdo. E a molecada, em busca das afirmações machistas dos adultos, tentava afirmar e reafirmar pelos exemplos da comunicação que para ser macho, tínhamos que ter um cigarro acesso na boca. Muitos dos personagens desta história já estão precocemente do outro lado desta vida.

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