"El camión ingles"

I – Prólogo: Tempo de moleque, na Vila Mariana – faz um tempão! Eu prestava atenção em detalhes dos engenhos: carros e caminhões, bondes e ônibus, aviões, locomotivas, tratores e guindastes – máquinas ainda com fornalhas como as marias-fumaça. Embora não com exatidão é que ainda me lembro de um caminhão “focinhudo”, que vi não sei onde nem quando; mas que tinha faróis sobre o pára-choque e era azulão, está na minha retina. Porém, era diferente dos caminhões mais comuns da Paulicéia: Ford e Chevrolet; GMC, International Harverster, Diamond, Mack e White; Studebacker e Nash – este era mais raro, com a mesma cara do automóvel -, Reo – que eu supunha ser europeu, mas era americano; Dodge, Fargo e De Soto – dos feirantes – os três com a mesmíssima cara, não? Os Caminhões eram, na maioria das vezes, a gasolina. Fenemês, como deles esquecer? De boleias diferentes. E outras marcas mais, de várias origens. Aquele azulão, dele se vi duas ou três vezes foi muito.<br><br>II – Faz tempão, mas eu ainda me recordo. Da plaquetinha de identificação do grande caminhão azul. Grudada no cofre do motor (ou era capô?), do lado de fora. Ela garantia: <br>- "El camión inglês". <br>Explicaram a mim, ainda moleque: <br>-“Caminhão inglês Leyland, marca de tradição.” <br>E só bem depois é que entendi porque a legenda era em espanhol; pois eram exportados mais para a Argentina e o Uruguai, além de outras países de língua espanhola, esta era a razão.<br><br>III – E os ônibus urbanos, paulistanos, dessa marca Leyland? Rodaram nos anos 50 e 60 e compuseram a paisagem, embora não tivessem sido tão numerosos assim. A CMTC não os teve – somente os primos em primeiro grau, os ACLO. Andei nos Leyland vez ou, quando moleque e, depois, fazendo entregas. Na Vila Mariana nunca deram o ar da graça. Com o decorrer do tempo, obtendo informações e fuçando jornais e revistas, é que vim a conhecer um pouquinho deles, o suficiente para gostar. Cheguei até a escrever para a fábrica, lá na terra em que "nunca tantos deveram tanto a tão poucos". Claro que não destinei aquela carta a Sir. Winston Churchill. Pois a Leyland britânica gentilmente enviou belos folhetos. Incrível: fazia de tudo, sobre rodas e lagartas! Lá estava a ilustração do grande caminhão, azul e “focinhudo”… O caminhão inglês.<br><br>IV – Paulistano(a) de meu tempo – daquela São Paulo da garoa: deves até, como eu, ter viajado nos Leyland. Quem sabe deles terá sido motorista? Cobrador? Vou reviver um pouquinho de nostalgia sobre rodas. Os Leyland eram bonitos, rápidos e de motor tal qual o Twin: sob o piso, no entre – eixos, muitos lembram. A gente, à época, descia pela porta dianteira. Aí, não tinha como o motor para atrapalhar, não? Nem para azucrinar o piloto com barulho e calor. Como eram os monoblocos, belos Super-B, de motor traseiro. Leyland aqueles, ingleses encaroçados na CAIO da Guaiaúna – se na Grassi também, já não me lembro. Rodaram quase que só na Zona Leste. A CAIO até me deu uma foto deles. Guardada, a salvo da sucata.<br><br>V – Lembro como se fosse, não agora, mas há 10 minutos. Dos Leylands verdes, do Alto do Pari, que rumavam para o Catumbi; subiam a Vila Maria, transpondo a ponte sobre o Tietê, os listrados de verde e amarelo de Guarulhos (via Penha), que no final da Gabriela Mistral cruzavam o Tietê onde havia – novidade para mim – um estaleiro; os inconfundíveis amarelinhos da Alto da Mooca – Vila Bertioga, Parque da Mooca, José Higino – neles todos andei na minha vidinha de entregador de remédios – linhas que zarpavam da Clóvis. Entre os bombeiros e a Rua do Carmo. Quem de vós lembra? Os Leyland da CTP, os quais pintavam curiosamente todas as rodas de seus ônibus, não só os ingleses, de cor laranja. Via Mooca, iam para Vila Zelina e região, São Caetano. Os da Penha-São Miguel (o da minha foto), possuíam garagem na Amador Bueno nas proximidades do cemitério. E os da Mogi – na Celso Garcia: de cor meio cinzenta, traziam o cão galgo vermelho pintado na lataria – cão corredor que parecia – saindo da lataria, chegar a Mogi antes que o Leyland! Os da Capuava, os da São Paulo-São Bernardo… Se houve mais, não me ocorre lembrar.<br><br>VI – O barulho do motor dos Leyland: Hoje, deles me lembrando, me parece com o barulho dos primeiros caminhões laranja Scania-Vabis, também “focinhudos”. Montados que eram na Parada VEMAG, não? Rua Guamiranga. Que jornais dos anos 40 diziam ter sido a "Rua da Grota Funda” da Companhia Studebacker de Automóveis. Ó paulistano de Vila Carioca, queira matar a curiosidade: por que "Grota Funda"? Chão da VEMAG, hein!<br><br>VII – "El omnibus ingles":Era a plaquetinha daqueles ônibus Leyland. Segundo os folhetos que recebi, "chassi for export – overseas". Plaquetinha que eu via no painel, perto do assento do motorista. Quem gostava de ônibus lembrará: o tigre e o leopardo… <br><br>VIII – É, informava o folheto da fábrica: aqueles ônibus Leyland da Zona Leste eram os modelos "Leyland Tiger" e "Leyland Leopard", não é, nostálgicos de ônibus? Na plaquetinha, a bela figura de cada felino, respectivamente. De bocarra aberta como se o barulho do motor lhes fosse o próprio rugido!<br><br>IX – Tigres e leopardos que rugiam na selva de pedra, da Rangel e da Celso Garcia, da Estrada de São Miguel, da Rua Oratório… Lógico, não sobrou um deles. Era de se esperar. Exceto o da minha fotografia.<br><br>X – Com a presente narrativa, peço concessão ao belo site – só quero registrar uma pitoresca lembrança do transporte paulistano. Aqueles ônibus ingleses, naturalizados paulistanos na Guiaúna, que rodaram por bom tempo transportando a força de trabalho de uma São Paulo fabril. Os quais, assim como outros ônibus, caracterizaram o transporte de uma região da Cidade.<br><br>XI – Epílogo: Meados dos anos 60. Os ônibus paulistanos – por igual, por todo o Brasil – vivem em uma nova era: um divisor de águas. Uma vez saindo de cenário os velhos ônibus importados – exceto alguns trólebus da CMTC – os ônibus passam a ser quase que exclusivos os de mecânica de sotaque alemão, sob a "égide" da estrela de três pontas: aqueles que não os revolucionários monoblocos, são encaroçados dela. Um novo capítulo na história do transporte coletivo, urbano e das estradas. De São Bernardo para todo o Brasil. Ônibus estes que, como aqueles tigres e leopardos, se incorporarão à epopéia do transporte paulistano. Epopéia que começou bem longe, quando – nos anos 20 – “ônibusinhos“ precários ousavam desafiar os bondes do povo canadense, não? Mais ou menos assim…<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>