Antigamente eu guardava papeis! Eram papeis de todas as formas e tamanhos, oficiais e extra-oficiais, rascunhos, originais, velhos e novos… O importante é que eram os meus papeis.<br><br>Essa mania me rendeu muitas brigas familiares. Muitas surpresas, geralmente agradáveis, pois encontrava um texto, uma anotação e até um registro profissional há muito esquecido e que me seria de grande valia naquele exato momento. <br><br>Depois, com o advento e o fortalecimento da informática, tive que ir me adaptando aos novos tempos. Então, os guardados passaram a ser digitalizados. Maldita invenção! Quanta coisa que eu sonhava estar bem guardada perdeu-se com os constantes "paus" nos equipamentos e, lógico, as trocas de HD's, as formatações etc. “e tal e cousa e lousa e maripousa”, como costumava dizer um comentarista esportivo do nosso tempo.<br><br>A troca não foi das melhores. Os papeis colecionados ficavam amarelecidos, mas continuavam tendo seus registros preservados, enquanto os arquivos digitalizados se perderam no espaço. Perdi muita coisa, textos, fotos, anotações, trabalhos, perdi inclusive, uma poesia feita em homenagem ao meu neto Rafael e que jamais será substituída.<br><br>Ora muito bem, todo o "lenga lenga" foi elaborado para servir de preâmbulo a um fato novo (?) que acredito ser valido para registro. Vamos a ele: outro dia, com receio de que outro "pau" acometesse o HD do meu notebook resolvi fazer uma varredura intensa e pormenorizada. Fiz também a varredura de muitos CDs que foram utilizados como backup em tempos passados.<br><br>Surpresa! Muitos CDBs sequer abriram, outros abriram parcialmente, e eu, pacientemente fui vendo cada um dos registros guardados, surpreendendo-me com alguns, deletando outros, relendo velhos textos e, num exato momento, deparei-me com um arquivo denominado “Miguel Chammas”, curioso cliquei para abrir e, quando aberto percebi que era um texto. De certo era um texto de minha autoria que eu tinha guardado e não mais me lembrava.<br><br>Comecei a leitura e fui me interessando cada vez mais. Ao final do texto que muito me emocionou, uma onda de rancor se apoderou de meus sentimentos. Tinha guardado o texto, mas por ser "expert" em assuntos informáticos não tivera o cuidado de registrar o seu autor. Tentei de todas as formas lembrar o nome do referido e nada. <br><br>Resolvi publicá-lo neste site na esperança de que o autor se identifique novamente. Assim sendo, vamos ao texto:<br><br>Miguel Chammas!<br><br>Certamente, Miguel, temos algumas identidades. Teus "meia" sete e meus "meia" quatro nos fazem contemporâneos e nossas histórias nos mostram peregrinos pelas mesmas noites e iguais caminhos.Muitas dessas identidades só se farão confirmar se trocarmos nossas saudades, mas uma delas já podemos afirmar: ambos amamos Sampa desmedidamente.<br><br>É muito provável que já tenhamos repartido espaços, quer na calçada do Pari Bar, quer na pista do velho Lilás, quer até mesmo na ante-sala da Madame Cristiane. Podemos ter comido pedaços da mesma "redonda", na Ayrosa; esperado com a mesma ansiedade a coalhada da Kibelandia; saboreado com o mesmo prazer a salada de batata e o salsichão da Salada Paulista.<br><br>Com as garotas que aguardamos à frente do Mappin, podemos ter assistido à mesma sessão do “Ouro” ou do” Marrocos”, antes de levá-las ao Bar Brahma e encantá-las, pedindo suas músicas preferidas, ao sempre bom pianista de plantão.<br><br>Pouco antes desse tempo, quando eu ainda aluno da Caetano de Campos, pode ser que batemos pé e gritamos numa mesma sessão “Zig Zag” do Cine Metro, ou aguardamos para cortar os cabelos numa das cadeiras "Dysneyanas" da Casa Clô. E se por acaso nos encontramos em um carnaval, pelos lados da Avenida São João, prometa não contar a ninguém que aquele magrelo fantasiado de cowboy era eu.<br><br>Embora tenha conhecido a Laura Garcia, muito pouco frequentei suas casas, não sendo elas minha "praia". Habituei-me, ao copiar meu pai, com uma boemia* mais saudável, o que, parece também nos identifica, mas pode ser que, levado por algum solteiro à beira do cadafalso, cobiçamos a mesma carne no La Licorne.<br><br>E por falar em carne, agora no bom sentido, será que não disputamos o mesmo ar rarefeito que se formava no Churrasqueto da Dom José de Barros? Abafado, não? Mas valia a pena! Ou ainda pode ter sido no Eduardo's, um pioneiro do rodízio. E por que não no Moraes, o rei do filé? Não desprezo também a possibilidade de termos sido atraídos, ao mesmo tempo, pelo ossobuco do Giovanni, o porpettone do Gato que Ri ou a linguiça "de Bragança" daquela portinha em frente da Casa Manon, afinal estamos falando de carnes…<br><br>Outra grande possibilidade de termos estado próximos vem do "tributo às origens", ou seja, uma constante frequência ao Almanara, da Basílio da Gama ou ao Jacob, do beco da Vinte e Cinco, ou ainda aquele cujo nome me escapa, na Barão de Duprat, referências que levam minha emoção ao auge, por serem alguns dos locais onde eu mais fui com o Feiez, das Casas Lima.<br><br>Embora árabe de sangue, acredito que você, de vida mais privilegiada, nunca tenha comido a esfiha dupla do Paco, nos baixos da Ladeira Porto Geral ou um kafta com arroz e tabule, num boteco do mesmo beco onde brilha o Jacob. Se assim foi, Você não sabe o que perdeu!<br><br>Pelo que te admiro, gostaria muito de ter compartilhado de tua Felicidade. Não que não tenha sido feliz, também, mas porque a tua, ao menos no que a traduzes, só pode ser escrita com F maiúsculo. Graças a Deus que nos abriram as páginas do São Paulo Minha Cidade e pude mergulhar em teus textos e assim, mesmo que de forma virtual, caminhar com você pelas tuas referências. Teria sido melhor, com certeza, a realidade, mas na sua total impossibilidade (o tempo não volta!), a virtualidade já me basta. <br><br>Miguel, todo esse intróito, esses volteios, são para te afirmar o quanto me emocionaram tuas palavras, mesmo sabendo-as engrandecidas por tua generosidade.<br><br>Estou arquivando no mesmo baú de memórias em que guardo meus mais felizes e inesquecíveis instantes paulistanos, o comentário com que me brindaste. Um dia ainda quero abrir esse baú à tua frente. Um dia em que o amanhã de nossas agendas não registre nenhuma anotação ou então que o tempo pare, para dar espaço a tanta felicidade que temos para reviver!<br><br>Se não acontecer em Sampa, que seja na Long Beach onde esse velho lobo ainda se faz rei. E poderá ser no puxado do Bar da esquina das ruas Costa e Silva e Castelo Branco, onde me vejo agora a comer mariscos, servido pelo pequenino velho espanhol, já há muito servindo ostras ao senhor.<br><br>Seja onde for ainda quero te agradecer pessoalmente pelas imerecidas palavras e talvez junto contigo compor mais um texto de louvor ao nosso amor comum, nossa São Paulo. Um texto em que ditarás o tema e conduzirás a escrita e eu, aqui ou ali, entre acanhado e muito feliz, me atreverei a palpitar. Pois não é assim que se devem comportar mestre e discípulo?<br><br>Um abração. E até!<br><br>e.t – E se levares a Mariana, não ficarei por baixo: levo o meu Felipe!<br><br> * – não importa se boemia – boêmia, boémia ou até mesmo bohemia. O importante é tê-la vivido e fazer constar isto do currículo que levaremos para a eternidade, coisa que nos garantirá um dos melhores lugares à mesa!<br><br>Atenção: Será que o autor deste texto não foi meu grande amigo Leonelo Tesser, o “Nelinho”? Aguardo confirmação.<br><br><br>E-mail: [email protected]