No principio, era barro.
Não se pudesse considerar uma calçada pois se separava da rua apenas pelo rastro deixado pela água que escorria, mas na Rua Bogotá, la na Freguesia do Ó, no despertar da infância, era um barro só.
A distância não era empecilho. As porteiras na rua Santa Marina judiavam não só da gente, mas de todos que precisavam cruzar as linhas da Sorocabana e da Santos Jundiaí, para ir ao centro da cidade ou dele vir. A subida da Rua Javorau, à esquerda a igreja da Freguesia, à direita a Av Itaberaba, pronto, estávamos em casa.
E foi ali, praticamente no meio do nada é que me entendi como gente.
Na rua Guaicurus, na Lapa, um bar e restaurante em frente ao Tendal, onde hoje é um centro cultural(acho). Jogar bola no paralelepípedo ou então colocar uma pedra no trilho do bonde só pra ver o motorneiro descer e ter o trabalho de recompor a linha. As ruas Vespasiano, Caio Graco, Tito, Faustolo, Duilio me faziam imperador nas brincadeiras diárias.
Brincadeiras, vírgula, pois eu só ia jogar bola depois de encher a geladeira de bebidas e de lavar o estrado (alguém sabe o que é estrado, hoje ?) E que voltasse depois das quatro da tarde que eu ia ver. A Lapa me levou às matinês do cine Nacional – pobre Olímpia – e a querer imitar na rua o que o Rocky Lane ou Hopalong Cassidy faziam na tela.
Nesse meio tempo, o velho e querido Brás com seus mistérios e delicias. Quanta discussões sobre futebol eu saboreei no Castelões, beliscando também as delicias que o gerente esparramava no balcão. Quanto provolone e garrafas de vinho, aquelas bojudinhas, enfeitadas com palhinhas penduradas nas prateleiras, quantas palavras desconhecidas, quanta saudade.
E a igreja então? Missa solene com aquelas moças todas de branco, de fita azul no pescoço, missa cantada, em latim, as vozes do coro emoldurando e a raiva contida quando o padre se dirigia ao púlpito e eu sabia que a missa iria ser longa, porque ele ia falar, falar, falar…. Mas tenho que ser desculpado, eu era criança e não sabia nada. Intermináveis procissões, pés se arrastando, velas bruxuleando ao vento. Que medo quando a Verônica fazia seu canto. Eu era criança e não sabia de nada.
Quando não tinha futebol, tinha o cine Gloria ou então o Piratininga, (o maior do Brasil – 1700 lugares de não me engano), ou o cine Oberdã, mas este era mais difícil porque tinha que atravessar as porteiras, o Largo da Concórdia e ai complicava.
O mais legal no Brás, depois das cantinas, da igreja, era conviver com aqueles italianos que falavam alto, gesticulavam e que traziam sempre algum queijo ou outra delicia qualquer do Mercado Municipal. E toca jogar tômbola depois do almoço. Só não gostava quando alguém trazia na sacola uma galinha viva que ira virar ensopado no dia seguinte. De engraçado só a sacola mexendo e uma cacarejante cabeça aparecendo de vez em quando sem saber o que lhe estava reservado.
Depois a Rua Groenlândia.
Se a rua Bogotá foi o jardim da infância, a Guaicurus, o primário, a Groenlândia foi o ginásio e a faculdade, mestrado e doutorado, tudo junto.
Ali em aprendi tudo.
As ruas sinuosas, casas de muros baixos, jardins enormes, calçadas floridas, os nomes dos países, – Jardim América, Jardim Europa – pessoas discretas e abastadas, famílias tradicionais, carros importados, choferes elegantes, empregadas uniformizadas, patroas exigentes, cônsules estrangeiros, governadores de estado, o industrial que foi prefeito, que foi governador, que foi secretário, que foi preso, que foi solto, que foi deputado federal, este ainda está por lá.
A nata da sociedade morava por lá. A mansão dos Matarazzo ocupando um quarteirão inteiro; O clube Pinheiros na estreita rua Iguatemi, um projeto novo “diziam que ia ser um shopping ( o que era isso?) Foi uma faculdade de primeira. O clube Paulistano com suas aristocratas damas e péssimas jogadoras de tênis que sempre mandavam uma bolinha de tênis por cima do muro. E nós lá, de tocaia, só esperando uma delas voar em nossa direção, na Rua Colômbia.
E que bolinhas fabulosas para se jogar taco. Jogar taco era outra delicia. Às vezes uma bolinha bem rebatida sumia lá longe e a gente conseguia (naturalmente) acabar com o jogo. Às vezes uma bolinha mal rebatida se perdia na vidraça do vizinho e a gente tinha que (obrigatoriamente) acabar com o jogo. E o jogo acabava, mas dois ou três dias depois, depois de passada a raiva do vizinho e a vigília no Paulistano para outra bola, tudo recomeçava.
Na Groenlândia tinha uma vila, onde se reunia a fina flor da criançada para ficar de mal ora com um ora com outro, sempre amolando os pais. Bem passadas algumas pedradas, nos filhos e não nos pais e muitas surras, dos pais e não dos filhos, alguns ficaram de bem e estão de bem (e muito bem casados) até hoje, Graças a Deus .
Andar de tróleibus era outra missão bem possível e agradável. Subir a Augusta, escolher um cinema; Paulista, Majestic, Picolino, Marachá ou Regência, estes primeiro, o Astor veio depois. Tomar um lanche no Frevinho ou no Frevo? Ou invés disso, que tal descer até o Bolonha e devorar uma empadinha ou duas? E se a gente descesse até a Ayrosa no Largo Paissandu e comesse umas pizzas no balcão? Tem muita historia para se falar deste pedaço.
Longas caminhadas da Groenlândia subindo a Rebouças e chegando ao Pacaembu e dali, com a cabeça quente ou não, seguir até o Brás e devorar ou ser devorado por aqueles italianos nos comentários do jogo, sempre numa cantina e sempre com antepastos e sardelas (hummm).
Por fim, o começo da historia. Tantas foram as calçadas que andei que me envaideço de ter as da Paulista como primeiro cominho. Vim na barriga e no colo fui mas a maior avenida foi o palco dos meus primeiros resmungos. Precisava mais ?
Não sou sambista nem nada, mas nasci com a Bela Vista aos meus pés.
Não sou poeta nem nada mas tinha que começar tudo na Paulista. E quando eu me for desta para outra melhor talvez seja enterrado por aqui ao som de dois amigos, um com seu tamborim – ta ta ta ta ta,tá outro com seu surdo Tum tum tum tum – ta ta ta ta tum tum, ta ta ta tum tum arrastando os pés nesta Paulista que tem trepidante amanhecer das manhãs serenas, o sorriso de lindas morenas, querendo a todos enfeitiçar; Paulista onde um sambista sua vida toca, e num instante sua tristeza enxota e faz a alegria consigo morar; nesta Paulista de tantos sonhadores tropeçando nas calçadas, muito boêmio namorando as madrugadas sonhando com a sorte grande que ainda não ganhou; nesta Pauista onde aquela menina não fez troça nem pirraça, uma Silvinha menina tão cheia de graça que meu coração, meu coração guardou.
Ah, as calçadas por onde andei.