Cinema para todos

Alguns cinemas da capital eram referências de bons filmes quando reprises, era o caso do Cine Paratodos que ficava nas confluências da rua Santa Efigênia, largo do mesmo nome, e Rua Antonio de Godoi, foi lá que assisti "O Cangaceiro" premiado em Cannes no Festival Internacional em 1953. Nesse tempo o Cinema Americano estava no auge das grandiosas produções, e o Cinema Europeu competia no mesmo nível. A nossa Vera Cruz não deixava por menos, e com o "Cangaceiro" mostrou toda a sua competência tanto na produção, direção e para surpresa a trilha sonora que encantou a crítica mundial. Canções como “Meu Pião", "Sodade Meu Bem, Sodade" de autoria do Zé do Norte consideradas perolas do cancioneiro nordestino, são lembradas até os nossos dias. “Mulé Rendeira", “Lua Bonita" de autoria desconhecida, são cantadas até hoje. Também premiada foi a trilha sonora. O tema do filme, bem conhecido do público brasileiro, não surpreendeu, mas a direção do Lima Barreto, essa sim, não só de nós brasileiros, mas do mundo todo. O diretor Lima Barreto um autodidata, viveu um momento de divina inspiração quando esculpiu com mãos de artista esse filme que correu o mundo e foi reconhecido como uma obra prima do Cinema. Ele foi também um roteirista consagrado. O seu projeto incluía épicos da nossa história, não chegou a concluí-los, pois, para a sua infelicidade uma doença traiçoeira o acometeu minando fundo o âmago da sua alma; envergonhado com sua decadência moral, ocultou-se na clandestinidade da rua onde viveu dias de abandono, e de aparência transfigurada pelo sofrimento e da enorme barba, quando recolhido a um sanatório foi reconhecido, tratado, obteve melhoras, mas com alternadas recaídas voltava à rua. Um dia foi recolhido em uma das ruas de Campinas o cadáver de um indigente, investigada a sua identidade constatou-se ser o Lima Barreto.
A gloria do mundo é passageira, mas para o laureado diretor, essa passagem foi cruel, ingrata, e não merecida.
Victor Lima Barreto era natural da cidade de Casa Branca, Estado de São Paulo, foi jornalista e escritor. Morreu em 1982.