Zilda Simões Salgado

Minha mãe nasceu em Brotas, filha de José Luiz Simões e Sebastiana de Camargo Simões, pessoas simples, mas muito respeitadas na cidade pela honradez, honestidade e amor a Deus. Não cheguei a conhecer o meu avô, pois morreu ainda na flor da idade, deixando a minha avó viúva e com doze filhos!<br><br>Vó Sebastiana, como a chamávamos, era uma mulher forte, de fibra. Deixou Brotas e foi para Piracicaba onde montou uma pensão para hospedar os estudantes da "Escola Agrícola". Foi assim que minha mãe conheceu meu pai.<br><br>Meu pai, Roberto Damas Salgado, nascido em Pindamonhangaba, morador de São Paulo, foi estudar em Piracicaba e contava que foi morar na pensão de minha avó e quem abriu o portão para ele foi minha mãe, que na ocasião usava um vestido azul e branco, que ele nunca esqueceu. <br><br>Mas… Falemos de minha mãe. Para não fugir à regra da família, era também mulher de muita fibra. Bonita, inteligente, corajosa, de um coração enorme e fé inabalável, o que pudemos testemunhar durante toda a sua vida, durante as dificuldades que enfrentou. Educadora nata. Se tivesse seguido qualquer outra profissão que não a de professora primária (que exerceu durante toda a vida), teria sido com certeza um fracasso.<br><br>Dedicada ao magistério e aos seus alunos (que amava como filhos e com os quais se preocupava verdadeiramente) fez de tudo para ensinar, criando formas didáticas novas que aplicava em classe com sucesso. Era severa, mas com carinho, procurando passar não só os ensinamentos e valores cívicos, mas também os religiosos a seus alunos.<br><br>Foi professora em muitos lugares, em fazendas no interior, na cidade de Viradouro, em Osasco e finalmente durante muitos anos lecionou no Instituto de Educação Caetano de Campos, na Praça da República. Em casa também tinha turmas de alunos para o que então se chamava "cursinho de admissão", necessário para aqueles que desejavam ingressar no ginásio (quase um vestibular na época) dada à quantidade de conteúdo exigido das crianças.<br><br>Dedicou-se também com muito amor ao ensino religioso e todos os anos preparava turmas enormes de crianças para receberem a primeira Eucaristia, realizada em uma cerimônia bonita na Igreja da Consolação e que terminava com um café da manhã em longas mesas montadas no corredor da escola. Na véspera do evento cada criança trazia um prato de salgado ou doce para ser partilhado do dia seguinte e as mesas eram preparadas com carinho por uma equipe de professores e alunos.<br><br>Em casa, com a família, sempre foi incansável. Hoje sou também dona de casa e mãe de família e de vez em quando fico a pensar admirada como minha mãe conseguia dar conta de todas aquelas tarefas ao mesmo tempo! Não descuidava nem um minuto de todos nós – meu pai, minha irmã, eu, a Vó Sebastiana que morava conosco e mais tarde dos netos que praticamente criou para nos auxiliar na vida agitada de hoje, pois dizia que o tempo passa muito rápido e não devemos desperdiçar as oportunidades e, por isso,<br>devemos ajudar uns aos outros.<br><br>Aliás, ajudar aos outros sempre foi à marca de sua vida. Ajudava os irmãos, os cunhados, os sobrinhos, os filhos, os netos, os pobres que pediam auxílio na rua. Em nossa casa na Barra Funda nunca faltou um prato de comida quentinha e saborosa para os que batiam pedindo alimento. Fazia-os entrar no corredor da frente, sentar nos degraus que ali existiam para que pudesse comer sossegados, com respeito.<br> <br>Com ela aprendemos que somos iguais perante Deus e que as diferenças criadas por culturas, pensamentos, preconceitos, devem ser evitadas e superadas com amor.<br> <br>Foi dura quando era preciso, mas mesmo quando nos ensinava ou repreendia, podia-se sentir que o fazia com amor. Não a vi derrotada e caída nem quando perdeu meu pai, companheiro de toda uma vida e que se foi – pode-se dizer – ainda moço. Enfrentou tudo sempre com força e dignidade, dando exemplo de amor e confiança em Deus.<br> <br>Até mesmo em seus últimos meses de vida, em que a saúde se esvaia pouco a pouco, raras vezes reclamou, agüentou as idas e vindas ao hospital, as inalações seguidas que lhe traziam muito desconforto e finalmente a internação da qual não voltou.<br><br>Como escreveu minha sobrinha Lucia Maria, na homenagem que fez a ela na missa de sétimo dia:<br>- "Partiu deste mundo bela, vitoriosa e serena. Deixa uma saudade imensa e uma herança de fé. Nunca te esqueceremos e sempre te amaremos. Nossa tão amada, tão querida! Quanta honra ter vivido com uma pessoa que descobriu o segredo de uma vida vitoriosa: para o desafio de cada dia, a fé, a humildade paciente, a coragem e a doçura. Muito obrigada por tudo o que fez por nós".<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>