Enfim Romilda iria realizar seu velho sonho de viajar de avião. A passagem já estava comprada, marcada e inteiramente paga com o dinheirinho da poupança que ela abriu na Caixa Econômica, logo no segundo mês em que trabalhou como manicure em São Paulo.
Assim que chegou pela primeira vez á São Paulo a baiana Romilda, depois de uma longa e "confortável" viagem de mais de trinta horas de ônibus pela rodovia Rio – Bahia, prometeu a si mesma que da próxima vez que voltasse a viajar para a Bahia faria o possível para que essa viagem fosse feita de avião.
E assim pensando, ela trabalhou firme longos 24 meses como manicure, para sobreviver na capital paulista e também poder juntar uma grana extra para voltar a Salvador nas férias e ver seus pais, sem enfrentar o castigo de mais de trinta horas, sacolejando sem dormir direito naquele ônibus.
E foi assim, depois de muita luta, Romilda conseguiu as duras penas juntar o dinheiro da passagem, do presentinho para os pais e irmãos e roupas novas para essa sua inesquecível viagem.
E então Romilda tirou suas economias da poupança e cheia de saudades, fé e esperança, foi ao centro de São Paulo, precisamente na Rua São Luiz, entrou em uma agencia de viagens e comprou as passagens de ida e volta para Salvador, para a sua querida e já saudosa Bahia de Todos os Santos.
Com a passagem comprada Romilda começou aos poucos a se sentir mais importante e também uma grande vitoriosa, afinal não é todo dia que alguém recém chegado da Bahia para tentar uma carreira em São Paulo dois anos depois, consegue voltar para a sua cidade de natal, com passagens de avião pagas à vista.
Romilda passou o resto das noites que antecederam a viagem, cheia de ansiedade e muitos sonhos nos quais, às vezes, ela se via entrando no Shopping Iguatemi, comprando roupas finas, ou então freqüentando aqueles salões de cabeleireiros onde ela sonhava trabalhar um dia como manicure de madame. Passeando e entrando em lojas da Rua Oscar Freire e jantando em restaurantes de luxo.
Cheia de sonhos e visões, chegou o dia da viagem e ela com duas malas e uma frasqueira, pegou um táxi na Vila Maria e rumou para Aeroporto de Guarulhos, aonde com certeza um Avião da TAM a conduziria de forma triunfal, de férias para a casa de seus pais.
Feliz da vida desceu do táxi, pagou a corrida colocou as malas e a frasqueira no carrinho, e sem estar familiarizada com Aeroportos, Romilda chegou ao balcão da empresa e perguntou entregando a passagem, onde era o embarque.
O funcionário olhando a passagem disse:
– “Vôo Domestico! É portão X”.
Romilda desconhecia esses termos muito comuns para qualquer membro da AFA (Associação dos Freqüentadores de Aeroportos), sentiu-se discriminada e reagiu dizendo:
– “Não é domestica não, eu paguei o preço normal pela passagem, não me deram nem desconto”.
O funcionário, olhando a passagem, insistiu que o voo era mesmo doméstico, fazendo com que Romilda, revoltada, gritasse que não era domestica e sim manicure, que havia comprado uma passagem normal e não uma passagem para domesticas e só havia trabalhado como domestica alguns meses antes de fazer o curso de manicure.
Foi então que uma comissária que passava pelo saguão do Aeroporto carinhosamente explicou que vôo domestico significava vôo dentro do país de origem e vôo internacional quando era feito para fora do país de origem.
E assim, devidamente orientada a respeito de vôos domésticos, Romilda recuperou a famosa calma baiana e curtiu com tranqüilidade e muita alegria a sua primeira viagem domestica de avião.
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