<br>Agosto tinha terminado, e Jânio tinha renunciado. Setembro estava começando e a primavera também. <br><br>Era um sábado ensolarado e eu depois do almoço estava indo ao dentista da Vila Olímpia, o saudoso Dr. Roberto Gouveia Paulini, quando parou um carro e alguém gritou:<br>- “Ei, Mário quer jogar bola? Vamos jogar em Santana e estamos precisando de um goleiro.”<br><br>- “Cara, estou indo ao dentista. Deixa para segunda feira.”<br><br>- “Mário, já laçamos quase tudo só falta o goleiro.”<br><br>Bom deixar de jogar bola para ir ao dentista, na verdade jamais faria. Principalmente porque vou jogar no primeiro quadro de uma verdadeira seleção do Itaim. O clube era de uma firma de produtos de adesivos. Já o nome dizia: “Adesite” onde só jogava cobra.<br><br>Nos anos 1960, sábado era o dia reservado as firmas que tinham clubes de futebol, e quase todas tinham. E pelo fato de ser pego de surpresa não estava com as chuteiras, mas tudo foi arrumado pelos colegas.<br><br>O Campo era ao lado do campo da aviação (campo de Marte) o que dificultava quem estava jogando, principalmente quem jogava no gol como eu. Subia um avião atrás do outro. De acordo com o vento que ia ao contrario da pista os aviões subiam em minha direção. Parecia que ia bater na trave que eu estava jogando no primeiro tempo. <br><br>Algumas vezes eu me abaixava um pouco o que gerou até risadas dos adversários. Pelo que soubemos antes do jogo, em três meses que aquele time estava jogando naquele campo não tinham perdido um jogo sequer. Mas eles estavam tendo pela frente o que tinha de melhor no Itaim em termos de jogadores. Eu estava um pouco nervoso, jamais tinha jogado em meio a tanta gente boa de bola, "verdadeiros cobras". Mas aos poucos fui ficando calmo. O adversário estava preso ao toque de bola do time do Itaim mesmo eles não jogando, nos mesmo clube. Mas o adversário era valente e vinha com tudo. De repente um chute de fora da área e a bola veio, alta no meio da trave e meu centro médio<br>Otavio, grita:<br>“-” Deixa, ta em casa!”(vai por cima).<br><br>Quando vi a bola baixar pulei quem nem um gato e mandei por cima. O time Santanense queria ganhar o jogo de qualquer maneira, e vinha com tudo, mas não passava pela nossa defesa, e numa troca de passes rápidos, a bola chegou ao nosso meia esquerda Decio, que num toque de primeira, colocou Branca na cara do goleiro marcando o primeiro gol.<br><br>Ai deu o desespero nos adversários, vieram com tudo em cima de nos, e num contra ataque marcamos o segundo gol, novamente Branca um centroavante muito parecido com o Aquiles do Palmeiras que não perdia um lance dentro da área. Ai o time adversário ficou desanimado e o nosso time era o dono do jogo e eu estava bastante sossegado. Junto à trave uma pessoa estava com o radio ligado, transmitindo os problemas políticos daquela semana. Agosto já tinha ido e, setembro estava começando bastante confuso pela renuncia de Jânio Quadros, e aquela duvida João Goulart vem ou não vem. <br><br>O radio com som alto dava para se ouvir duas vozes uma de uma emissora do Rio Grande do Sul a voz de Leonel Brizola, mandando seu cunhado "Jango" vir a Brasília ele que estava na China Comunista, e com medo de vir por que os militares não iam<br>com sua cara. Também o senador Auro de Moura Andrade então, gritava mais alto: -“Venha Goulart, venha que eu garanto sua posse”. <br><br>Eram dois após o Sete de Setembro, dia da Pátria.<br><br>Quando o jogo terminou com a nossa vitoria por 2x 0, o capitão do time adversário um negro baixinho veio nos cumprimentar, mas mostrava sua irritação pela derrota. Ele era gago, falava rápido e a gente não entendia nada, como muitos colegas chegando quase ao riso, para tanto colocavam a mão no rosto, como estivessem limpando o suor. O futebol deixou muitas historias.<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>