O consumismo do cotidiano

No largo Padre Péricles em Perdizes, bem atrás da igreja, em um prédio modesto de oito andares, desço no elevador com um sujeito esquisitão, que presumo ser ele morador do mesmo edifício.

A principio achei aquele sujeito indelicado, cabisbaixo, estranho, envolto num turbilhão de pensamentos. Com cordialidade, em um gesto educado, cumprimentei-o com um bom dia. A resposta veio fraca, entre dentes, como se estivesse na obrigação de retribuir-me o cumprimento. Parecia um rosnar de dentes, esse que os cachorros emitem quando estão enraivecidos e dispostos a morder. O pescoço do homem se retesou como se estivesse em luta consigo mesmo. Pensando bem, percebi que o tal sujeito não estava a fim de nenhuma conversa.

O elevador parou no terceiro andar e uma moça com um vestido de organdi azul coladinho no corpo, sapatos combinando, tudo comprado presumivelmente em loja de banca subiu também, nariz empinado, com duas argolas de metal na ponta das orelhas, toda nervosa, grunhindo por entre dentes um bom dia que mal se ouviu. O tal sujeito, enrolou a língua e disse um bom dia inaudível, quase um rosnado. Eu e a moça descemos no andar térreo. Ela mal olhou para mim. Parecia também, que estava envolta em pensamentos. Estava atrasada para chegar ao emprego.

O tal sujeito continuou no elevador até a garagem no subsolo do edifício. Pegou o automóvel e sumiu na direção da Avenida Francisco Matarazzo, naquela hora enviesada do dia, atulhada de trânsito. Seria ele o tal do Bonifácio, inimigo figadal do carcamano do oitavo andar? Seria ele um xenófobo? É possível…

Quando cheguei à rua, fui direto para a padaria do português tomar um pingando com pão e manteiga. A mulher do “portuga” estava novamente grávida com um filhinho no colo. Fiquei pensando e analisando os costumes estranhos das pessoas que moravam no mesmo edifício que eu. Seriam eles, efetivamente os meus vizinhos do prédio? Do andar? Quem sabe.

Ali ninguém se conhecia de fato. Todos estavam envoltos em pensamentos, assoberbados de dividas, de incertezas sobre o que lhes esperaria num futuro próximo. Dividas e mais dividas: O condomínio para pagar, o aluguel atrasado, a escola dos filhos, a prestação do carro novo, a conta da luz que aumentou de preço, a parcela do IPTU atrasado acrescido dos juros de mora, a conta da gasolina que estava pendurada no posto da esquina, o cartão de crédito também já estourado, o cheque especial no limite do crédito, a conta do gás que estava por vencer, o plano de saúde que lhe corroia metade de todo o orçamento, o pagamento do rateio extra do condomínio para reforma do telhado do prédio… E, como se não bastasse, a inserção a cada trinta segundos no rádio e na televisão dos anúncios que não paravam de martelar nos ouvidos, excitando o povo para o consumismo exagerado: Xampus, cremes de beleza, perfumes, coisas inúteis, remédios para reumatismo, bicicleta ergométrica, anúncios chamativos para compra do automóvel novo sem nenhuma taxa de juros; lojas de aparelhos eletro-eletrônicos oferecendo de tudo, em módicas prestações, com o conhecido jargão:
– “Compre agora e só comece a pagar daqui a dois meses sem juros no carnê ou no cartão.”

Que fazer? O dinheiro cada vez mais curto e as despesas cada vez mais longas. Por acaso, alguém tinha coragem de cumprimentar alguém? Fiquei pensando naquele sujeito do elevador, cabisbaixo, olhar sem expressão, aquele grunhido cheio de ódio da humanidade, vitima ele, como eu, e tantos outros, reféns do consumismo exagerado.

Porém, há coisas que me distraem o espírito. A longa fila do banco para pagar o condomínio, a conta do telefone, a revista que minha filha assinou, o carnê de contribuição do INSS e mais algumas faturas enviadas pelo correio. Seria eu um masoquista? Fico na dúvida. Apesar de tudo, continuo com um bom humor disfarçado. Pergunto a um senhor na minha frente, na fila do banco:
– “Você está vendo ali, naquela parede, atrás da mocinha do caixa?” E aponto o dedo em riste.
– “Olha aquele casal de idosos na fotografia do baners afixado lá.”
O homem da foto está bem vestido, de suéter cinza, cabelos grisalhos aparados rente, dentes perfeitos, sorriso cativante nos lábios, olhar discreto. Ao seu lado uma senhora também grisalha, bem trajada, dentes bons, colarzinho imitando pérolas, olhando para nós da fila dos aposentados com um sorriso de escárnio disfarçado. E a legenda diz tudo: “Crédito consignado para você aposentado do INSS, com juros especiais”. Não agüentei.

Olhando mais uma vez aquele casal simpático da fotografia exclamei com ar de deboche para o velhinho quase maltrapilho a minha frente:
– “Será que eles são aposentados do INSS? Parece que não! Pelo perfil, pelo trajar, devem ser aposentados europeus ou norte americanos.”
A fila desabou em risos. Por onde andaria agora o Bonifácio do meu prédio? Estaria ele ainda preso no emaranhado transito da cidade? Estou quase apostando que sim! E a moça? Já teria chegado ao seu emprego? Ou estava esmagada, sem poder movimentar-se dentro do transporte coletivo, correndo o sério risco de perder o pé de apoio no chão da condução. Estaria ela, dependurada num balaustre do ônibus ou do metrô apinhados de gente? A resposta me parecia obviamente afirmativa. Havia também gente como ela companheiros de desdita, correndo atrás do suado e minguado salário mínimo para tentar sobreviver nesta selva de pedra.

Mas seria necessário tanto esforço físico, tanta competição em busca de alguns trocados que satisfizesse o desejo de consumir? Estariam construindo ou se auto-destruindo? No final das contas, acabamos todos nós, ricos e pobres, gordos e magros, altos e baixos, bonitos e feios na mesma vala comum, deitados na horizontal, dentro do caixão de defuntos. Para que se desgastar nessa maneira estúpida de viver?

Confesso realmente, não sou eu que vou modificar o mundo. Continuo ainda, metido naquela mesma agencia do banco. Olho desconfiado para a porta da rua para ver se não tem nenhum assaltante à vista. Estou ainda na fila dos aposentados para pagar as minhas contas. Seria eu igual a essas pessoas? Essa interrogação deixou-me preocupado. Estaria eu, também, entrando nesse jogo perigoso e estressante do dia a dia?

E as eleições que já estavam começando a esquentar no rádio e na televisão. Quanta proposta, quanta promessa, quanto discurso improdutivo, como sempre a mesma história, já contada e recontada pelos candidatos a algum cargo eletivo. E o povo sempre acreditando. Mais saúde, mais educação, mais segurança. O imbróglio de sempre. Cada candidato olhando para o seu próprio umbigo, pensando seriamente como se eleger. O povo, ora essa, é apenas um pequeno e insignificante detalhe.

Finalmente chegou a minha vez junto ao guichê do caixa. Olhei para a moça que me fitava cordial. Ela também, com certeza, era vitima da burguesia consumista. Perguntei se ela efetivamente iria acreditar em mim. Ela sorriu e desconfiada disse sem ao menos saber o que eu iria lhe falar.
– “Claro que acredito no senhor!”, retrucou.
– “Olha”, disse eu… “Está vendo esta japona preta, um tanto desbotada já surrada, foi um governante importante quem me deu. E as calças, você pode não acreditar, mas foi alguém da republica quem me ofertou. E a camisa, juro, foi o Jânio quem me ofereceu. E os sapatos confesso que não os queria, mas foi o bispo quem me doou.”
E recompondo-me todo, visto o gesto de espanto da pobre moça, retruquei
– “Você acreditou?”
Ela sorriu, fingiu acreditar, porém, ao mesmo tempo incrédula e para me agradar disse:
– “Eu acredito no que senhor está falando!”

Paguei as minhas contas e sai satisfeito do banco, depois de purgar os meus pecados na longa fila de espera dos "jovens aposentados", mas recompensado pelo bom humor disfarçado no meu também, conturbado consumismo cotidiano.

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