O ano era 1964, bem no auge dos acontecimentos políticos no Brasil. E eu nem imaginava o que estava acontecendo, só queria brincar. Levantava, tomava meu café e caia na farra a brincar. Lá pelas 11h minha mãe me chamava para tomar banho e almoçar.
Era chegada à hora de ir para escola, Grupo Escolar Ascanio de Azevedo Castilho. Ainda me lembro do nome de algumas professoras: Dona Zulma, Angelina, Lourdes, Mitiko e a Cléo, que era substituta. Recordo-me muito da Cléo: ela era filha da Dona Maria, servente que morava na própria escola, pois o terreno era muito grande. Na casa moravam Dona Maria e os dois filhos, Cléo e o Ditinho, que trabalhava na Guarda Civil.
Mas numa tarde, estávamos em aula quando ouvimos um estampido. Era o Ditinho que ao manusear a arma. A mesma disparou, o acertando mortalmente. As aulas foram suspensas e todos dispensados, mas aquela cena ficou em minha mente… Eu tinha apenas sete anos. Cheguei a ficar deprimido, não querendo frequentar as aulas.
É nesse momento que entra a Praça da Bandeira, minha mãe no intuito de me ver feliz, propôs: “Volte às aulas que te prometo que iremos pelo menos umas duas vezes por semana à Cidade (Praça da Bandeira)”. E assim foi: eu chegava da escola e íamos direto para a Cidade.
Lá encontrávamos o meu padrasto que trabalhava na CMTC. Ele era graxeiro. Isso mesmo. A função dele era limpar os trilhos do bonde bem no entroncamento dos trilhos, tirava toda sujeira e aplicava a graxa, era um barato. Eu nessas aproveitava para andar de bonde.
Lá pelas 19h, ele jantava, dividia sua marmita comigo, era tudo muito bom. Aí eu voltava a brincar entre os carros estacionados na Praça da Bandeira. Lembro que eram muitos carros, uma infinidade!
Lembro também do Teatro de Alumínio! Ele era interessante, parecia uma nave espacial. Eu achava estranho que vários homens ficavam disputando uma “vaquinha” entre o vãos do teatro na parte de trás, que dava bem no camarim das dançarinas. De repente chegava um cara do teatro e punha todo mundo pra correr.
Lá pelas 21h, meu padrasto retornava para irmos embora para casa, mas antes pegávamos o bonde e íamos até a velha estação de bondes do Braz para deixarmos o material de trabalho do meu padrasto, Sr. José Ferreira dos Santos, 35 anos de CMTC, mais conhecido como Zé Pretinho.
E assim retornávamos à Cidade Líder, dormindo no colo de minha mãe, exausto, mas feliz por ter passado um belo final de tarde nesta grande cidade que é Sampa.
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