Tributo à Várzea Paulistana

Sem querer imprudentemente dizer que vivo do passado, porém nostalgicamente venho trazer minha saudação à Várzea Paulistana a quem devo agradecer pelos conhecimentos, embora empíricos, ofertados.

Deu-me luz para a solidariedade, a responsabilidade, a sinergia, a cidadania, ao compromisso, a ousadia e respeito ao próximo. Para mim, foi uma viagem de lazer e experiência desfrutada e disputada a cada passo, a cada chute, a cada jogo.

Cada bairro comportava dezenas de campos de futebol. Uns gramados, outros calvos, com grama só nas beiradas, e a maioria de terrão mesmo. Quem a viveu nas décadas de 50, 60 e até meados de 70, conheceu a grande época de ouro da Várzea Paulistana. Sou desse tempo. Ainda menino, batendo uma bolinha de meia ou de borracha, derrubando bibelôs dentro de casa, e muitas vezes arrancando a tampa do dedão em uma touceira do campinho da esquina.

Depois, participando de "grandes embates" já com uma bola de capotão número três de propriedade de algum garoto de família mais abastada que o presenteara no último natal. “No vira a 5 acaba a 10”, eram clássicos disputados entre as turmas das vilas vizinhas, com trave de dois paus fincados no terreno.

Depois, vieram os timinhos infantis do bairro. Jogo de camisa surrado ganho de algum time da vila, íamos definindo as posições dos craques a cada jogo. Os mais gordos na defesa, os com mais panca no ataque, o “ruinzão” no gol e o dono da bola na posição que quisesse.

Mais tarde, já no juvenil, no extra ou no sport (categorias dos times), nos vem a saudade das viagens sobre a carroceria do caminhão abarrotada de jogadores e torcedores para o campo de um bairro distante. Quanta emoção ao ver seu nome ou foto estampados na Gazeta Esportiva numa página exclusiva sobre a Várzea.

Saudade da velha chuteira conseguida com grande dificuldade, na qual passava sebo quente para preservá-la e não raras vezes com impertinentes pregos espetando a sola do pé durante a pelada.

Saudade da estréia de novo uniforme doado pelo político do bairro. Saudade de beber água direto na torneira ou na bolsa d'água. Saudade de quando se fazia boa partida com um belo gol marcado e à noite no bailinho da paróquia era elogiado e cortejado pelas garotas.

Não conseguia esconder a máscara: gola da camisa levantada, saía para dançar ao som de Ray Conniff. O que dizer da confraternização regada a cerva gelada após uma partida se até dos sururus vem a saudade? Ah, a Várzea revelou grandes craques. Hoje, perdeu a identidade. Não tem mais brilho e padece grande enfermidade. Está na UTI, perto do fim. A memória coletiva dos varzeanos está se dissipando a medida que nos tornamos veteranos e começamos a falhar em algumas funções e nos falta disposição até para cartolagem. Sua sobrevivência depende da nova geração e das autoridades municipais.

Existem ainda alguns campos na cidade, entretanto, os jovens que jogam pelos clubes que ainda restam não têm o mínimo compromisso com a sua bandeira. O interesse pelo futebol por parte dos jovens está reduzido e foi substituído pelos jogos eletrônicos. Embora alguns sonhem ser craque um dia, já não tem grandes chances a não ser procurar uma escolinha de futebol.

Tanta coisa aprendi com a velha Várzea e, por isso, rendo minha homenagem dizendo muito obrigado e que ela me perdoe por algumas ações e expulsões. Tudo isso me serviu de lição de vida. Você me deu a sabedoria de entender quando estou errado em algumas ocasiões. Deu-me disciplina. Obrigado Velha Senhora, você foi uma escola especial para mim, independente da formação oficial, carrego no peito o seu virtual canudo de formatura social. Seu ex-aluno Efigênio Pio.

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