Aconteceu no dia 12 de agosto de 1940. A manhã foi de sol. Um sol quase frio e tímido de fim de inverno. Nos jardins, porém, as ervas pareciam agitar-se, impacientar-se e até mesmo alegrar-se, pressentindo a primavera. Mudavam o tom de verde, cresciam e, afoitas, preparavam em seu íntimo as flores que haveriam de ostentar na estação ainda por vir.
As condições, entretanto, não lhes eram favoráveis. A seca, que entre nós sempre acompanha o inverno, era rigorosa naquele ano. A terra rachava, ressecada pela estiagem, e na maioria dos poços faltava água.
Dona Júlia, do número 31 da Rua Sílvio Leandro, sobraçando uma trouxa de roupas e ainda carregando ao colo sua menina, Emília, de 22 meses, dirige-se ao número 20 daquela rua, na esquina com a Avenida Alberto Byington. Faltava água no poço de sua casa e a vizinha permitira que ela fosse ali, lavar as roupas da família.
O poço tinha 25 metros de profundidade, o que tornava penoso puxar a água com o sarilho, mas depois de algum tempo ela já havia enchido o tanque e algumas bacias com água e entregava-se a não menos cansativa tarefa de lavar as roupas. De repente, num movimento rápido, a criança empurra a tampa corrediça, vai para frente e, sem apoio, cai no poço, sem que a mãe tenha tempo para acudi-la.
Enquanto isto ocorria, uma carroça puxada por um baio entrava naquela avenida, vinda da Vila Maria Baixa pela atual Rua Mére Amédea. Seu condutor cantava alegremente, mas sua voz aos poucos enfraquecia na medida em que, ao aproximar-se daquela esquina, apercebia-se de que algo havia acontecido.
Ao chegar ali, já não mais entoava sua cançoneta. Apreensivo, num salto, desce rápido da carroça e tendo conhecimento do ocorrido, não titubeia e apesar da corda não oferecer nenhuma segurança, ele rapidamente, sem calcular os riscos, desce ao fundo do poço. Depois, vem a penosa subida. A velha corda desgastada, a ponto de romper-se era vagarosamente ensarilhada pelas mulheres que ali haviam acudido (os homens estavam no trabalho). Finalmente ele chega à superfície trazendo a menina, que entrega à mãe desesperada.
Quis o destino que o seu corajoso e humanitário gesto não fosse suficiente para salvar uma vida. Vida que apenas principiava. Desolado, subiu na carroça e, instintivamente, com um leve toque, moveu as rédeas. Em obediência à ordem, o cavalo pôs-se em movimento e lentamente desceu a avenida. O silêncio desolado do cantor refletia toda angústia que lhe fazia doer o coração. Fenecera um anjo e ele não pudera evitar. Fora impotente para realizar o impossível. Foi com tristeza que o vimos sumir, lá pelas bandas do Jardim Japão, envolto na neblina matinal, ainda não dissipada.
O moço-cantor, de uns vinte e poucos anos, forte e destemido, era António Boccio, filho de imigrantes italianos, que morava no Brás, na Rua Caetano Pinto, número 57. Era habitualmente muito simpático, alegre e sorridente.
Tinha cabelos pretos e lisos e salvo engano (faz tanto tempo…), um bigodinho à Errol Flynn, muito em voga na época. Cantava desde menino, dando vazão a seu talento inato. Em 1937, começou a cantar profissionalmente, com o nome artístico de Tito Maia que dois anos depois, substituiu pelo de Tônio Tonini, com o qual se tomou famoso. Sabia como ninguém interpretar canções italianas, particularmente as belas e inesquecíveis cançonetas napolitanas.
Sentimental, dava-lhes aquele tom apaixonado, transbordante de romantismo típico de um verdadeiro "Oriundi". Em sua longa carreira artística, muitos foram os palcos onde se exibiu. Cantou no Teatro Colombo (Largo da Concórdia) e no Santo Helena (Praça da Sé), no Cassino Antártica, em circos, entre os quais o dos irmãos Seyssel (futuro Circo do Arrelia) e ainda em inúmeros cabarés e cantinas. Manteve também, por alguns anos, um programa fixo na Rádio Gazeta.
Geraldo Sesso Júnior, no seu belo livro "Retalhos da Velha São Paulo", dedica-lhe páginas memoráveis e nos informa que, nos anos 80, com sua voz romântica e sentimental, ele encantava ainda os frequentadores da "Balila Cantina" localizada na Rua do Gasômetro, 322, no Bairro do Brás".
Foi sempre muito explorado pelos empresários que se aproveitavam do seu caráter ameno. Magoado, sumia dos palcos por algum tempo. Para viver, percorria com sua carroça as ruas do Brás e imediações, vendendo pescado.
Tônio Tonini, foi também muito popular na Vila Maria dos anos 40, onde também vendia peixes e onde soube tornar-se muito querido, granjeando a simpatia de todos os que o conheceram. Percorria as ruas do bairro sempre a cantar. Quando parava sua carroça, ficava rodeado de admiradores, que eram também seus fregueses e cantava para eles, em plena rua, como se estivesse no mais luxuoso teatro. E como cantava!
Mais tarde, aí pelos anos 50, conforme fui informado, mas não posso confirmar, ele teria vindo morar em Vila Maria, na Rua Iacanga (em frente ao antigo campo do Biquinha FC.), onde possuiu um bar. O certo é que nessa época, brindou os moradores da região, com memoráveis apresentações na Cantina do Medeiros.
Naquele dia fatídico, quando a tragédia se abateu sobre nós, as crianças percorreram as ruas próximas e, em cada casa onde houvesse um jardim, pediam flores para um "anjinho", como era costume, então, chamar-se as crianças falecidas em tenra idade. Eu, criança ainda, mal compreendia o que se passava e apenas deixava-me levar pela mão de minha irmã mais velha. A menina loirinha, de franja, de olhos verde-azulados, que prematuramente partira para juntar-se a outros anjos, era minha irmã caçula.
Deus lhe pague, Tônio Tonini.
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