Ao Tucuruvi, gris Tucuruvi

Dos seus altos em guarda
Teu verde esplendor camuflavas
A dura sombra
de uma guerra distante,
tal carcaça ferida
inconciliada;
1932 d.C., onde hoje,
Rastro apagado,
nos dá companhia aqui
Agora um hipermercado

Pois tu, tu mesmo T.,
Tuas ladeiras morrem em minha dor
(em cheio),
Abandono-me na insignificância)
antes
Velo o irreparável chão impuro
das horas guardadas; aqui
ou ali ouço disparar carências
onde há tempos
meus pés surrupiam
dor-tripas passadas

pois então,
lavremos esse chão de pegadas
quando azuluz na noite
tucuruvises de nascença,
uma vez que esplende
o raro lampejo
da amorfa cicatriz gris
no torso;
pois tu, tu mesmo T. – estás comigo,
teu lume também me pertence.

(Tucuruvi, 1963. Nesse tempo, o grande morro que circundava o então moderno complexo imobiliário do Cine Valparaíso exibia uma densa paisagem verdejante de bananeiras e jabuticabeiras.

Era garoto ainda, mas lembro bem da história: diziam os mais antigos, toda essa região incrustada entre as avenidas Nova Cantareira, Tucuruvi e a Rua Domingos Calheiros, graças à sua topografia, fora também palco estratégico – posto de observação e sentinela – do conflito histórico denominado Revolução Constitucionalista, ocorrido no ano de 1932.

Um pouco por conta desse fato ou boato, incorporei esse "mito (sub)urbano" aos versos iniciais. Uma alusão, talvez apenas curiosa e extemporânea, tanto que ao longo de algumas décadas tudo veio a desaparecer, tragado pela odisséia modernizadora que de tempos em tempos empreendemos, para, quem sabe, inconscientemente apagar da nossa memória todo "sangue, suor e lágrimas" fincado em nossos corações.)

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