Aos sete anos eu fui para a escola pela primeira vez. Meus irmãos mais velhos já sabiam ler e eu criara uma expectativa de conhecer esse novo mundo. Quem tinha melhores condições financeiras ia mais cedo, frequentando o jardim de infância da Tia Judite.
Eu comecei a estudar na parte da tarde no colégio Valdivino Tito. A farda era um short de brim azul claro, chinelos havaianas e uma camisa branca de tergal branca. O bolso, com o emblema do colégio, era comprado avulso na diretoria e depois a mamãe costurava. Era obrigatório um caderno de caligrafia, um de desenho (pequeno e com costa de arame) com folhas alternadas de papel de seda, um lápis preto com borracha na ponta, uma coleção de seis cores e a cartilha ABC.
Esse material era comprado na FENAME por ter os preços mais em conta. A caneta, só poderia ser usada a partir do quarto ano, assim como aqueles cadernos enormes que logo arrancavam a capa. As coleções, de tão frágeis, quebravam a ponta com facilidade e os lápis de cera eram um sonho quase impossível.
Não existia merendeira. Na hora do recreio fazíamos uma fila enorme para comer mingau de milho em copos gigantes ou arroz de leite no prato com colher. Por muitos anos, aquele cheiro de mingau ficou nas minhas narinas e foi o que conseguiu me manter de pé. Do lado de fora, mulheres vendiam bolos fritos em enormes bacias de alumínio cobertas por um pano de prato limpíssimo. Outras vendiam pirulito naquelas tábuas furadas.
As carteiras em feitas para serem usadas por dois alunos e as aulas eram dadas com as janelas escancaradas. Parece que nesse tempo não existia calor. As professoras eram respeitadas e caso alguém fosse mandado para a diretoria seria considerado quase um herege.
A primeira vez que consegui juntar as letras e realmente ler uma palavra, foi quando mamãe me mostrou um jornal onde havia, em letras garrafais, o nome São Paulo.
Depois de um pequeno esforço a palavra mágica saiu e naquele dia, eu me considerei a pessoa mais importante de casa. Perguntei sobre o gigantismo de São Paulo, se era muito longe…
Sinto saudades…
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