Trabalhei no final da década de 1960 na Eletromar, uma empresa situada em Santo Amaro, que depois foi adquirida pela Westinghouse e assim mais, uma indústria nacional foi absorvida ou dissolvida pelas grandes corporações internacionais.
O responsável do departamento era Seu Artur, homem de muita estima e bem justo. Eu era muito jovem e trabalhava na expedição controlada pelo "seu" Aristão, bonachão, não havia como não respeitá-lo, pois estava sempre disposto a ajudar os mais novatos.
Quando iniciei minha vida profissional, quem ensinou o serviço foi o Domingos, em que todos nós o chamávamos de Mingão. Na época era intercalado entre as folhas nas notas fiscais um carbono, assim, cuidávamos do arquivo, juntamente com outro amigo, meu xará, Carlos. Nós entrávamos limpinhos e saíamos todos sujos do material que manipulávamos.
Nós éramos muito jovens, uns 14 anos (hoje não seria possível trabalhar) metiam-nos medo, pois ao lado desta empresa ficava a Inbelsa, uma divisão da Philips que era visitava pelos militares que tinham dado o golpe de Estado de 1964, e a empresa fabricava componentes de controle de material bélico e todo o aparato de viaturas era para nos prender.
Nossa proteção era a cozinheira da empresa, Dona Elza, que nos tratava como seus filhos e ninguém sentava conosco à mesa, pois comíamos por dois "cada um de nós". Ela gostava muito dos Carlos, fazia comermos bem e dizia que era para crescer!
Entrou um rapaz de nome Caetano e como nós fomos incumbidos em orientá-lo, no primeiro dia ele resolveu sentar-se à mesa conosco! Foi a primeira e última vez: o xará "rachou" a bandeja no meio e eu acabei com o resto. O novato ficou assustado e todo o restaurante começou a rir, e Dona Elza teve que fazer o prato dele. Coitado, nós éramos dois esganados, e como se dizia na mecânica: “comíamos mais que ‘lima nova’”.
Depois fui para a área de desenho técnico, sugerido pelo Seu Artur, pois eu desenhava uns Patos Donalds, Mickeys, Zé Cariocas e dependurava na seção.
Um dia, o "chefe" pediu-me para desenhar um toureiro. Eu desenhava por intuição, não tinha técnica nenhuma, mas ele gostou e falou para eu procurar uma escola e estudar desenho. Eu subia sempre para o Largo 13 de Maio, em Santo Amaro, e passando pelo SENAI Ari Torres, na Rua Amador Bueno, vi a convocação de jovens para o curso de desenho, lembrei-me do conselho de Seu Artur e lá fui eu fazer a prova e por "sorte" da vida, passei.
Era desenho técnico, mas minha ignorância era muita e eu perguntei para um amigo da sala: “Quando o professor irá começar com desenho artístico? Tipo desenho animado?”. Ele riu e falou: “Nunca”, pois era desenho industrial. Eu já estava ali e ali fiquei e trabalhei com projeto industrial, por "sorte", durante 22 anos e foi por esse motivo que sai da Eletromar. Hoje passo por lá na Rua Amador Bueno e sempre olho para a fachada: ela é a mesma e a saudade afasta meu olhar!
Tinha permanecido no SENAI para ter "profissão", pois precisava "colaborar" com o crescimento do país. Acreditava-se que poderíamos participar do milagre econômico, a mesma "corrida de formação de mão-de-obra" da atualidade, a mesma farsa enganando a juventude.
Depois desta fase, fui fazer o colegial normal, pois havia certa recusa em aceitar a formação do curso técnico como "colegial". Precisava fazer o vestibulinho para concorrer a uma vaga no Colégio Estadual Melvin Jones.
Eu havia parado com cálculos e equações e só fazia matérias ligadas à mecânica, redações e análises da língua. Resolvi fazer o cursinho preparatório oferecido por professores do próprio colégio, e de minha turma, os professores mais efetivos eram a Sandra de matemática e o Gianella de português.
Quando, de repente, a secretária da educação, Esther de Figueiredo Ferraz, publicou o edital que "proibia" quem atingisse a maioridade de estudar em cursos regulares oferecidos pelo Estado, precisei entrar com "mandado de segurança" para ser aceito como aluno.
Um dia, no cursinho, o Gianella perguntou quem tinha impetrado mandado de segurança e deste dia em diante até o fim do colegial, poucos sabiam meu nome e todos me chamavam de "Mandado". Ainda hoje, ao cruzar com "antigos" amigos, eles repetem o que ficou como jargão, uma marca, que sempre me faz recordar do Melvin!
Educação não é problema, é solução, nem que para isso seja necessário um "mandado de segurança" contra o Estado!
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