O leitor familiarizado com o assunto já sabe do que se trata o texto…
Em uma São Paulo onde não existia tanta fiação exposta, materiais inflamáveis, casas cuja fragilidade nas construções são verdadeiras tochas de combustão e áreas livres cada vez mais escassas, a prática de soltar balões se tornou impossível; mais que isso: é crime!
Mas recordar a magia de um tempo em que o céu ficava pintadinho de balões nos meses de junho, sem colocar em risco as aeronaves, as indústrias, então escassas, e outras conseqüências ambientais, isso pode.
A confecção de um balão caseiro, pequeno, era um verdadeiro ritual, que envolvia a família toda durante os meses que antecediam as festas juninas; era assim lá em casa, no Ipiranga.
Primeiro os papéis de seda, cores e tamanhos certos, boa qualidade, guardados com carinho para não molhar, amassar, etc. A cola era caseira, a base de farinha de trigo e água, passada com cuidado nas beiradas das folhas. O excesso se tirava para deixar o balão bonito, sem manchas.
Hora da primeira secagem: penduradas no varal, as folhas eram por nós, crianças, observadas para não rasgarem com o vento. Minutos bastavam e elas estavam prontas para ir para a linha de montagem, etapa fundamental para o sucesso da empreitada.
Definido o modelo e o tamanho, dois dos quais dão título a esse texto, eram separadas as folhas, que iam se transformando em gomos e, por fim, em balões. Uma das pontas era amarrada com barbante e a outra aguardava a próxima etapa, a confecção da boca.
Nova secagem, agora pendurados pelos barbantes, nova vigilância e lá iam os balões para a etapa final, onde verdadeiros arquitetos e engenheiros, nossos primos, pais e tios, se esmeravam em confeccionar as bocas, que tinham de ser proporcionais ao tamanho e ao peso de cada um.
Da parte mais perigosa, o feitio da tocha, as crianças não participavam; verdadeira alquimia, a mistura certa da parafina, querosene, saco de estopa cortado em tirinhas e arame para a sustentação, tudo isso resultava em tochas de tamanhos variados, que não podiam ser nem grandes nem pesadas demais, somente no tamanho certo e com quantidade de combustível suficiente para encher o balão de gás, subir sem queimar, mantê-lo no ar por alguns minutos, apagarem suas tochas no ar e caírem, às vezes até sendo reaproveitados.
A magia que acompanhava aquele balão se enchendo, cada um de nós segurando um de seus gomos, para mantê-lo firme até ter força sozinho, cada subida de balão, os sonhos que subiam com eles, a torcida para que ele se juntasse logo aos outros que coloriam e iluminavam o céu, tudo ficou no passado.
Hoje as crianças não têm essa oportunidade, o crescimento das grandes cidades trouxe outras formas de magias, sonhos e torcidas, mas essa ficou dentro de nossas mentes e corações e quem pôde participar de uma festa junina onde o ápice era soltar um balãozinho, sabe do que estou falando. Ficou lá atrás é verdade, mas é tão bom lembrar de um balão pião, de outro mexerica, do caixote e de tantos outros…
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