O cheiro gostoso de café moído e coado na cara do vivente perfuma o ambiente do Bar Bosa na Rua Direita e parte daquele quarteirão que vai da Misericórdia até a Praça da Sé, quase.
O movimento de passantes é grande, intenso. As pessoas passam pra lá e pra cá, todas com o passo apressado pra aquentar o frio. Nem é preciso dizer que vocês sabem como é o clima da Paulicéia nas tardes de junho: ora garoa, ora chove, ora faz um solzinho sem vergonha, ora parece que a cidade se acinzenta, coberta com uma sombra só, o que traz uma saudade muito grande dos dias de sol aberto.
Dentro do frege-moscas, a visão da rua é perfeita, iluminada; o mesmo não se pode dizer de quem olha de fora prá dentro: o interior do bar é escuro, pouco iluminado. Um balcão alto, igual ao do Franciscano da Líbero Badaró junto a uma parede, a máquina de coar café brilhando como se fosse de platina, uma pia, prateleiras cheias de garrafas de cachaça, vermute e fogo paulista, uma estufa com alguns salgadinhos de origem duvidosíssima, uma geladeira de madeira com uns 2,5 metros de altura, daquelas resfriadas por pedras de gelo num gentil oferecimento da Cervejaria Brahma, algumas mesas e cadeiras velhíssimas, do tempo das azagaias – assim é o Bar Bosa, que fica quase na esquina da Direita com XV de Novembro, em frente à loja da Fotoptica, pertinho da Drogasil…
Estamos no tempo dos mil réis… Sentado a uma mesa (português correto, mas pernóstico, acho, eu mesmo, melhor paulistanizar logo essa encrenca), digo, sentado na última mesa, no fundo do boteco, o velho malandro bebe seu café fortíssimo, sem açúcar. Faz biquinho pra tomar o café que despejou no pires e toma muito cuidado pra não sujar a camisa branca com as mangas dobradas cuidadosamente acima dos cotovelos e a gravata de seda com nó inglês. Não tira o chapéu cata-ovo da cabeça, joia rara de chapéu que manda lavar e passar ou na Ramenzzoni da Quintino ou na Ladeira do Seminário. Os cabelos vaselinados, brilhando, assentados rente ao couro cabeludo graças ao ferro quente e a uma touca feita de meia de mulher; o paletó está colocado no espaldar da cadeira ao lado.
Senta-se de frente para a porta:
– É o seguinte: se o "mal-me-quer" se apresentar, ele “num vai mi vê purque aqui é iscuro i eu vejo êle premero”, então, eu tenho tempo “di tomá minhas providença, ca sola ou co fala-mais-alto qui eu tô sempre aprivinido…".
Tudo teatro, encenação. O velho Galo Cego nunca foi de briga, sempre foi da diplomacia, do bate-papo, do 171.
Tinha um nome a zelar e precisava fazer seu número, mas era só pra “èpater les bourgeoises”, pra impressionar os iludidos! É certo que ele só pegava na sola (navalha) pra fazer a barba e "fala-mais-alto” (revolver), ele tinha até medo de olhar pra um… "Mal-me-quer". Desafeto não o tinha, mesmo porque sua conversa era aliciante e sua simpatia era mortal. O Galo Cego tinha mais uma coisa de bom, sabia contar histórias, vivera ou presenciara muitas histórias e tinha muitas delas pra "sialembrar":
– Eu “sialembro” do tempo que aqui na Praça da Sé parava as “carruage dos bacana”, isso “fais munto, munto” tempo. Os “cochêro” era tudo de “liforme” e andava “di nariz impinado”. “Elis dava as mão pras madama descê i num caí dus istribo”. As “carruage”, umas “era” aberta “i ôtras era cuberta, fechada i tinha uns nome istrangêro”: era as Caleche, as Sedan, as Coupê, “i as grandona”, era as “Landô”. As “muié” usavam aqueles “vestidão cumprido” e “percisava di tomá” cuidado prá não “arrastá as saia” ou “pisá” nos monte de cocô de cavalo que ficava “nu” chão. Os “urbano cas pá”, as “bassôra” e as carrocinha “num” vencia “limpá” aquela “muntuêra” e a Praça “fidia qui nem cochêra chuja”, acho até “qui fidia” mais… “Intão viero us bondi da Laiti i aí miorô” bastante, mas ainda “ficô um mijimpé” aqui pertinho, quase na boca da XV di Novembro (quando eu era moço era Rua da Imperatriz, eu achava mais “bunito”!), “qui fidia menus” (sempre tinha um “capadócio qui” mijava fora do “miquitório”) mas “fidia”! Um dia, já “fais” uns “anus”, a Intendência “mandô derribá o mijimpé i” aí “acabô” a fedentina “duma veis”, graças a Deus…
E continuou:
– As “igreja qui” tinha aqui, “di” São Pedro e “di” São Paulo também “dirrubaro i tão fazeno” a “Catedrar” nova. Diz que a “Catedrar” vai “ficá” na Santa Ifigênia até a nova “ficá” pronta… Mas eu acho “qui” demora uns “anus”, a obra “té munto divagar”… A igreja da Nossa “Sinhora” do “Rosaro dos Homis Preto” saiu do Largo da “Misiricórdia” “i” foi “prá ôtra” ponta do “triango”, perto do Largo “di” São Bento, no Largo do “Rosaro”. Diz que “tão construino ôtra” no Paissandu, “qui os homis qué usá” o lugar “prá fazê num” sei o quê… “To” só “pensano” aqui “cós” “meus botão”: igreja, circo, tourada, tudo num lugar só, sei não… “Num” vai dá certo… O Paissandu é “munto piqueno”… “Qué sabê” duma coisa? “Vâmisperá” “prá” vê “cuméquifica”, “êlis qui” são “branco” “qui si” entenda…".
Em 2011, continuamos dentro do Bar Bosa. Galo Cego pede mais uma xícara de café sem açúcar, acende um cigarro – Iolanda ou Fulgor, acho, e quer continuar a conversa, mas me despeço:
– Desculpe, Galo Cego, mas tenho que ir. Daqui a pouco ninguém consegue mais entrar no metrô!
– Ih! É “mesmu”! “To” até “esquecêno” que tudo isso é um sonho, e seu sonho é minha realidade. “Num” tem “importânça”. Quando “quisé” “conversá” mais comigo é só “fechá ozóio i mi chamá queu” venho… Ah, sim… “Num mi” chama de Galo Cego. “Mi” chama só de Galo! Galo Cego eu acho “munto” feio…
– Mas porque Galo Cego? Como é que o senhor perdeu esse olho? Desculpe perguntar.
– Tem “importança”, não, mas eu “num” “sialembro” “si” foi na Guerra de Canudos ou “si” foi numa “patruia qui” eu fiz em Porreta “Terme” “co pessoar do Premero” Escalão da FEB, na Itália; acho “qui” foi um “ispinho” de mandacaru ou meu “ôio” congelou co frio, “num” sei, “num sialembro".
O engraçado é que eu não me espantei quando seu rosto e suas roupas mudaram. De repente, sentado à mesa, com uma cuia de chimarrão na mão, um soldado gaúcho me olhava de frente e, logo em seguida, um soldado usando uniforme verde-oliva com uma braçadeira com a cobra fumando, se levanta e me diz: "Presta atenção! Tem ‘tedesco atraz’ daquele monte de neve…" e o velho Galo Cego reaparece fazendo anéis de fumaça de seu cigarro!
Abri os olhos e saí para a rua. O frio continuava e um vento faz doer minhas orelhas. Dou meia dúzia de passos. Paro. Olho pra trás. Não vejo o Bar Bosa, não vejo a Fotoptica, não vejo a Drogasil, não vejo a pastelaria do China… Voltei… Melhor andar depressa se não a Dona Odete vai pensar que eu ando pulando a cerca ou voltei a beber nos botecos da vida.
Eu ainda preciso ver o Galo Cego, quer dizer, o Galo. Tem muita coisa que eu preciso saber daquele Nego Véio. Lembro do que ele me disse um pouco antes de eu abrir os olhos:
– Eu “tô” sempre aqui, venha à hora que quiser. Tenho a eternidade toda pela frente, eu você e a nossa cidade. Venha, venha, venha… “Bamo” “conversá” mais…
– Tá, Galo. Qualquer dia eu volto.
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