Essa padaria não mais existe. No entanto, esses fatos são verídicos, apenas o nome do estabelecimento comercial e dos personagens dessa história são fictícios, preservando e respeitando o anonimato das pessoas aqui envolvidas.
Severino era o nome de um dos atendentes da padaria Flor de Jasmim na região central da capital de São Paulo. No fim do expediente, os funcionários de uma empresa vizinha costumavam apoiar os cotovelos no balcão da padaria e bebericar a costumeira cerveja gelada no final da tarde.
Àquela hora entre o lusco fusco do dia, a padaria estava sempre repleta de fregueses, todos sentados nas bolachas de madeira à espera do homem que viesse servi-lhes o balcão.
O Ariovaldo, chefe da seção de peças, com a grosseria que lhe era peculiar, deu uma batida com o punho cerrado no balcão pedindo insistentemente a presença do atendente.
– Cadê o Nicanor?
– Queira ter a bondade de desculpar a demora. É que o outro funcionário foi ao banheiro. Estou sozinho para atender ao grande número de clientes. Em que posso servi-lo? – Disse prontamente o Severino esmagando com os dentes uma apara de um palito.
– Traga-me um sanduíche americano – pediu o Ariovaldo olhando para o garçom.
– Sim senhor, é prá já!
Foi até a geladeira, retirou um pé de alface lisa, arrancou duas folhas generosas sem higienizá-las, separou os tomates também sem lavá-los e os demais ingredientes e preparou o tal sanduíche americano. O brutamonte do Ariovaldo se esticou todo, debruçou o corpanzil sobre o próprio tronco para evitar sujar a roupa e começou a devorar com sofreguidão o tal sanduíche americano.
O Otavinho, outro cliente da padaria, estava ao lado do Ariovaldo e observava preocupada a cena daquele homem engolindo o tal sanduíche. Seu pensamento estava voltado para o Severino que agora começava a esfregar alguns pratos com resíduos de alimentos na água na torneira da pia.
– Severino onde está o Nicanor? – Perguntou o Otavinho.
– No banheiro! – respondeu ele. – Esses dias ele anda meio adoentado. O senhor vê, tenho que me desdobrar em dois para atender a freguesia.
– O que ele tem? – perguntou o Otavinho olhando desconfiado para o atendente.
– Não sei não senhor. Ele anda com uns desarranjos intestinais ultimamente.
– Ele procurou um médico no posto de saúde?
– Acho que não! Disse-me que é coisa passageira. Deve ter sido alguma coisa que ele comeu e não lhe caiu bem na barriga.
– Estranho! – disse o Otavinho olhando para a fisionomia desbotada do Severino.
Serevino continuava lavando os pratos na água corrente sem passar nenhum sabão ou detergente. Apenas esfregava a gordura com os dedos indicadores. Era ordem do proprietário. Devia economizar o material de limpeza.
Quando o brutamonte do Ariovaldo, depois de satisfeito, se afastou raspando com um palito o molar do dente superior, o Otavinho lançou uma dúvida no ar.
– Severino! – disse ele, olhando para o homem que agora já passava um pano seco no fundo dos pratos. – Você também, está muito doente! A sua fisionomia está descorada e eu noto na sua pele uma palidez extrema. Com certeza você também está muito doente.
– Mas eu não tenho nada – retrucou o Severino um tanto desenxabido. – Minha saúde anda tão boa como a do senhor!
O Otavinho lançou a dúvida.
– Porque você não pede para o doutor Clovis um exame de fezes? Ele costuma todas as tardes frequentar a padaria para tomar um cafezinho. Quase certo que não irá lhe cobrar nada pelo exame. Pede também para o Nicanor fazer o tal exame – completou.
– Mas eu não sinto nada! O senhor deve estar enganado.
– Pois é, como estou lhe falando, – disse o Otavinho – é para o seu próprio bem e do Nicanor, também. Peça para o doutor Clovis um exame de laboratório. A propósito, quando vocês vão ao banheiro, costumam lavar as mãos?
– Claro, -respondeu o Severino prontamente.
O dizer era afirmativo, mas na prática era ironia. A padaria não tinha nenhuma pia depois do sanitário. Era quase certo que o mondongo do Nicanor nem sabia o elementar, ou seja, a higiene das mãos após o uso do sanitário. Por economia do proprietário da padaria, limitava-se a higienizar o traseiro com folhas de jornal e ia, logo após, servir o lanche aos fregueses. “Esses dois devem estar contaminados”, pensou Otavinho. Aquilo era um problema de saúde pública.
Ficou sabendo que os dois tinham vindo recentemente do sertão de Pernambuco e possivelmente estavam contaminados por algum tipo de moléstia parasitaria transmitidas por algum agente infectante. Os dois haviam chegado à capital no mesmo dia, há seis meses. Ao ser cientificado pelo Otavinho, o doutor Clovis gentilmente e de imediato, pediu que os dois fossem no seu laboratório de análises clínicas para o procedimento dos respectivos exames.
Não iria cobrar nada pelo serviço de coleta e do exame das fezes. O Severino tinha a mania de coçar o traseiro, ao levantar-se. Achava que as hemorróidas estavam incomodando. Por isso, não dava muita importância ao fato. Aquilo era uma coisa corriqueira, depois de usar a latrina. O Nicanor, no entanto, queixava-se de uma dor do lado direito na região do fígado, já de longo tempo. Lembrou-se de quando criança costumava dar uma mãozinha para ajudar a mãe na lavagem da roupa num córrego de águas parada no interior de Pernambuco. O Severino também gostava de refrescar-se na mesma lagoa do conterrâneo.
Ambos vieram para São Paulo em busca de novos horizontes e aqui pretendiam se instalar caso arrumassem um emprego que lhes garantisse o sustento diário. De início, foram contratados pelo Manuel Ribamar, proprietário da padaria Flor de Jasmim, no centro da capital de São Paulo. O portuga não era muito chegado à higiene do local. Quando alguém entrava no estabelecimento lia em letras garrafais o anúncio: "Visite nossa Cozinha."
Na realidade, o anuncio devia ser "Visite nosso Banheiro". Pela logística do fato, quando um banheiro é limpo com frequência, usando dos aparatos necessários de higiene, ou seja, com pia de louça, água sanitária e sabão para as mãos, papel toalha, chão e ladrilhos diariamente asseados com desinfetantes aromatizados, seria a mínima condição prevista para um bom asseio do local.
Baseado nessa prática diária, o freguês podia fazer suas refeições com tranquilidade, porque o proprietário é rigoroso no preparo da comida servida. Finalmente, depois de alguns dias, saiu o resultado dos exames do Severino e do Nicanor também. Ambos estavam infectados por ascaris lumbricóide, giárdia lamblia, oxiúros, e o mais sério de todos, pelo Schistosoma Mansoni devido à higiene precária na região de origem de ambos.
O Severino e o Nicanor eram culpados? Não! A culpa era do proprietário do estabelecimento que por ignorância ou sovinice não tinha o menor cuidado com a higiene da padaria.
Os dois empregados foram encaminhados para um serviço de saúde publica para o devido tratamento. Ali receberiam orientações dos procedimentos mínimos de higiene com a saúde de ambos e o bem estar de todos da coletividade, usuários da panificadora Flor de Jasmim. Os dois devem a vida ao Otavinho que desconfiou que ambos estavam contaminados com alguma doença mais séria.
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