Todos sempre têm uma pessoa na família que gosta de contar histórias do passado e em minha família este personagem se chama tia Toninha. Tia de meu pai, irmã de minha avó, tia Toninha nasceu numa fazenda perto do antigo Porto Martins, ao lado de um rio proveniente do Rio Tietê, há mais de 230 km de São Paulo, próxima à cidade de São Manuel.
Tia Toninha conta que aos oito anos foi morar na Rua Baronesa de Itu, 315, na casa da mãe de Adhemar Pereira de Barros, Dona Elisa Pereira de Barros, que era sobrinha de sua avó. O objetivo seria o de dar uma educação melhor à menina que não teria grandes perspectivas na vida se continuasse na fazenda.
Esperta e inquieta, a menina aproveitou a oportunidade e se interessava por tudo que acontecia ao seu redor. Embora achasse bonito, Toninha odiava ter que colocar sapatos envernizados, meias e roupas cheias de laços e rendas para participar de chás beneficentes que aconteciam na luxuosa residência entre Dona Elisa e senhoras da Legião Brasileira de Assistência, gostava mesmo de ficar na cozinha com os empregados, comer biscoitos diretamente da lata, correr, brincar, ouvir contos dos antigos empregados, passear pela cidade de São Paulo e conhecer seus grandiosos prédios.
Naqueles anos o amor pela cidade de São Paulo começou a nascer em seu pequeno coração de oito anos. Assim Toninha cresceu e com o tempo voltou à fazenda para ajudar sua mãe Dona Francisca, mas todo aquele verde ao lado do imenso rio tornou-se pequeno para a jovem que havia descoberto a cidade de São Paulo e sonhado novos sonhos. Estudou à noite na cidade de Botucatu, pegava trem até a fazenda, não se intimidava pelas dificuldades. Se preparava para voltar à sua São Paulo.
Entre tantas passagens de sua vida, uma que me chamou a atenção foi quando ganhou de seu pai Jeremias um lindo cavalo que algum tempo depois vendeu escondido para comprar um violão que aprendeu a tocar sozinha.
A inquietação interior para buscar outros caminhos na cidade grande fazia seus dias serem um tédio e por mais que fizesse nada a sossegava. Assim, Tia Toninha ainda bem jovem resolveu voltar para São Paulo onde viria a trabalhar numa boutique na Rua Augusta. Seus olhos brilham ao contar do glamour da Rua Augusta daquela época.
Fala sobre os desfiles que eram feitos na boutique para clientes preferenciais, narra detalhadamente sobre os vestidos, chapéus e sapatos de salto, conta como eram os bondes que faziam parte da rotina diária e o trajeto que tinha que percorrer até chegar onde morava, na Avenida Angélica, residência da mãe da proprietária da loja onde trabalhava. Posteriormente mudou-se para a Rua Apa, travessa da Avenida São João, num pensionato somente para moças e para onde também levou uma de suas irmãs vinda da fazenda.
Grandes mulheres que não temiam desafios… Não temiam trabalho… Com o passar do tempo tia Toninha se tornou gerente, fechava a loja sozinha e caminhava um bom trecho à noite a fim de pegar o bonde sem qualquer perigo de assalto e comenta sempre:
– “Não havia os perigos de hoje em dia…”
Fala sobre o Edifício Altino Arantes ("Banespão") e o centro antigo da cidade com riqueza de detalhes impressionantes, somente possível aos que viveram na época e conheceram muito bem a região.
Tia Toninha conheceu Rubens, namorou, casou e foram morar no Rio de Janeiro onde sempre trabalhou e fazia cursos, dirigia automóvel e estava muito à gente de sua época. Morou sempre em Copacabana de onde também traz muitas histórias, porém, dentro de seu enorme coração de 87 anos há um grande espaço ocupado pela cidade de São Paulo de sua época.
Depois da invasão de sua casa por ladrões armados, na década de 70, Toninha e Rubens, seu inseparável companheiro, resolveram após se aposentar, mudar do Rio de Janeiro e voltar às origens de Toninha: o Rio Bonito, local de seu nascimento, onde construíram uma bela casa e moraram à beira da represa por muitos anos, ouvindo o barulho das águas, do vento, dos pássaros e das embarcações que transportavam mercadorias na hidrovia Tietê-Paraná e de onde traz também muitas lembranças. Ativa sempre movimentou o lugar ajudando em campanhas locais.
A idade fez com que buscassem um local mais adequado às necessidades e atualmente reside na cidade de Botucatu, que fica há poucos quilômetros do Rio Bonito, em local perto de um grande supermercado, farmácia, feira livre, hospital, bancos, enfim, onde podem transitar tranquilamente e com certa segurança e comodidade. Os passos mais lentos trazem a segurança que a idade lhe proporciona em igual proporção às limitações que o corpo impõe.
Toninha ainda traz amigos da década de 40/50 falando muito ao telefone ligando sempre para São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Limeira, etc.
Pessoa dinâmica, sempre se atualiza com revistas interessantes, lê muitos livros, tem celular, tem TV por assinatura e acredito que não demore muito para entrar nas redes sociais do tipo Facebook, Twitter e coisas do gênero.
Se ela é feliz? Com certeza!
Tanto Toninha, quanto Rubens são daquelas pessoas que fazem o dia da gente melhorar quando os encontramos. Sempre com histórias envolvidas em muito bom humor trazem uma outra visão do mundo: a visão dos que viveram muitas experiências, conheceram muitos lugares e pessoas, enriqueceram suas vidas com as possibilidades que lhes foram oferecidas e repassam isto para os que os encontram pelo caminho e gostam ouvir, sejam os parentes, amigos, ou algum desconhecido que encontram em filas no banco, no supermercado ou na farmácia.
Nos caminhos e nas filas do dia-a-dia temos a possibilidade de encontrar Toninhas e Rubens, pessoas prontas a repassar um pouco de suas experiências e que fazem nossos dias mais agradáveis simplesmente pelo fato de ouvirmos um pouco sobre o que eles têm para nos contar.
Quanto à relação entre São Paulo e tia Toninha, vem à mente a imagem de uma jovem subindo apressada a Rua Augusta, na década de 40/50, de blusa branca tipo camisa, colar de pérolas, saia rodada na cor bege, comprimento abaixo dos joelhos, sapatos tipo Chanel marrom, de salto alto, bolsa pequena de couro marrom, um pequeno e delicado relógio.
Vejo-a andando pelas ruas do Centro, indo aos cinemas, cafés, confeitarias ou casas de chá com amigas e sua irmã e que entre conversas e sorrisos encontrou o olhar de um jovem carioca por quem iria se apaixonar, casar e construir um futuro e uma vida inteira juntos.
Este talvez seja o resumo da vida de tia Toninha que veio para São Paulo um dia e mudou seu destino.
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