Os dias das semanas úteis de cada mês no Bixiga iniciavam-se com o frenético movimento de pessoas e carros pela velha e bastante conhecida Rua Santo Antonio, onde por vinte anos morei.
Os anos cinquenta e sessenta foram-me bastante marcantes pelos diversos personagens que coabitavam naquela artéria, por suas características ímpar. Montado numa espécie de cavalete, com uma grande roda, iguais às antigas carroças, era uma “engenhoca” bem elaborada com uma pedra de rebolo (ou mó), o velho afiador de facas e outros artefatos cortantes se fazia notar de sua presença soprando um característico apito de muitas notas que, só muito tempo depois vim a descobrir que o tal apito tinha o nome de “gaita de pífaro” ou “de fauno”, este último alusivo ao personagem mitológico grego que tocava igual instrumento e encantava a todos que o ouvissem.
Apoiado a este cavalete, as donas de casas confiavam-lhe suas facas, tesouras, cutelos e outros iguais para as necessárias afiações de seus fios de corte. A engenhoca era posta de pé e, acionada por uma alavanca, espécie de pedal, lembrava uma engrenagem das velhas máquinas de costuras, que eram movidas a pedal, que fazia a pedra de amolar girar e assim poder afiar.
Serviço executado, o pagamento era feito e na semana seguinte lá estava o velho afiador de facas para renovar os gumes cegos dos fios de corte.
Outro personagem, ou talvez, outros personagens que também povoavam o nosso bairro eram os vendedores de frutas e legumes. Expostos em cima de uma carroça do tipo plataforma, era empurrada por dois ou três homens que subiam e desciam as ruas e vielas do bairro, para vender seus produtos hortigranjeiros.
Ao lado da carroça, seguia um homem com uma espécie de cone, de alumínio ou latão, que servia para amplificar a voz e assim, poder anunciar as frutas e legumes, fresquinhos de alguma horta das redondezas. Era necessário ter muito fôlego para anunciar as ofertas, já que o tal “amplificador” não era elétrico e, a dissipação do som exigia muito de sua garganta, ao que, no final do dia, era comum o 'locutor' estar afônico ou rouco.
Hoje, estas velhas carroças deram lugar à peruas e caminhonetes que poupam o esforço físico dos vendedores.
– "Garrafeiroooooooo… Compro jornais, revistas, garrafas, ferro e alumínio.”
Este era anúncio do velho garrafeiro que, também, puxava uma carroça, igual àquelas puxadas por cavalos, só que bem menor. Lotava-a de “cacos” e outros materiais inservíveis das casas, nas ruas por onde passava. Tudo era acertado por quilo e, para tanto, munia-se o velho garrafeiro de uma prática balança vertical que acusava o peso das “quinquilharias”. Somente as garrafas eram cotadas por unidade.
Era comum observar a carroça apinhada de coisas velhas e numa altura que todos duvidavam que o pobre do garrafeiro fosse capaz de conduzir a tal carroça, mas ele conseguia.
Um outro personagem e, desta vez, oriundo do oriente árabe, pois poderia ser turco, sírio, libanês ou mesmo da Arábia, percorria as ruas do Bixiga à cata de roupas e sapatos velhos para serem, se necessário fosse, consertadas e depois, serem vendidas em algum brechó da cidade.
As peças a serem arrematadas eram, via de regra, examinadas até a exaustão, o que sempre gerava uma acirrada discussão com a questão do preço a ser acertado. Contudo, as negociações terminavam com ajustes em que, ambas as partes concretizassem um bom negócio.
Muitas donas de casa tiveram a oportunidade de se livrarem de velhas roupas, garrafas, vidros, ferros e outros similares sem serventia, em troca de alguns bons “tostões” que, com certeza, serviram para reforçar o orçamento doméstico.
Também economizaram comprando verduras e hortaliças, além de frutas, diretamente da granja.
Ainda temos e, em alguns lugares, as figuras destes personagens que, renitentes, mantêm essas tradições e que contam, com certeza, algumas boas dezenas de anos ou, porque não dizer, secular.
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