Estávamos no meio do ano de 1975, eu ainda morava na Freguesia do Ó e ainda nem pensava que dali a dois anos estaria de mudança para Campos do Jordão, onde passei a viver até 2001, quando me transferi para Taubaté e daí para Lorena, onde vivo atualmente.
Em junho de 1975, fomos convidados (eu e minha família por um tio irmão de minha mãe e já falecido) para uma festa junina, da qual ele anunciou que seria a última de sua vida, e para isso contava com a presença de todos seus familiares, amigos, colegas e conhecidos.
Possuidor de uma casa com um terreno extenso e que em breve iria desaparecer, pois ele resolveu colocar metade do mesmo à venda, para levantar dinheiro e reformar a velha e antiga casa há alguns bons anos construída no Bairro da Cachoeirinha.
Tio Antônio, em vista disso, resolveu fazer esse "festão" em homenagem a Santo Antônio e ao terreno que em breve ficaria bem menor. Meu tio caprichou: convidou um sanfoneiro, fez pipoca, batata doce, bolo de fubá, arroz doce, canjica, pamonha e, é claro, quentão à beça, que, segundo ele, era para esquentar o frio que naquela época, no mês de junho, era bem forte na Vila Cachoeirinha.
Às oito da noite, depois de encher o quintal de bandeirinhas e pequenos balões de papel de seda colorido, meu tio já estava comandando o acender da fogueira de aproximadamente perto de 3 metros e meio de altura.
Os convidados chegavam a todo instante, primos que eu não via a mais de sete anos ali estavam felizes se abraçando.
Entre amigos, parentes e penetras, eu, sem exagero, acredito que perto das 20h30, umas 150 pessoas circulavam pela festa fazendo com que aquele aparente grande espaço territorial, fosse aos poucos se tornando pequeno.
O consumo era geral: bacias de pipoca, travessas com bolo de fubá, arroz doce, batata doce, canjica e pamonhas desapareciam como que por encanto. Nem é necessário dizer que dois caldeirões de 15 litros de quentão, mesmo sendo servido em pequenas xícaras de cafezinho, jaziam vazios, esperando para serem reabastecidos.
E foi então que um primo meu resolveu colocar uns vidros de gutalax (purgante incolor sem cheiro e sabor), nos caldeirões de quentão já devidamente cheios, e que rapidamente começaram a ser servidos para todos os presentes.
Meu tio anunciou aos berros: “Pessoal, agora vamos levantar o mastro, preparar os foguetes para soltar, mas antes vamos dançar a quadrilha, porque o sanfoneiro chegou!”.
E assim, com o mastro já de pé, a cara cheia de quentão com gutalax, ao som gostoso da sanfona, o pessoal foi para uma quadra de vôlei, agora transformada em salão de baile, e se largaram nas musicas típicas dessas festas.
Agora imaginem a situação: o pessoal com o bucho cheio de pipoca, bolo de fubá, refrigerantes, pamonha, amendoins, arroz doce, batata doce, mais o quentão que era 51 puro disfarçado com um pouco de água e umas batatas de gengibre… Aquilo tava provocando uma pressão intestinal semelhante a uma panela cheia de leite fervendo, prestes a sair pra fora da panela.
E foi precisamente nesse clima, que um festeiro soltando um balão gritou: “Pessoal vamos soltar os FO…”. Ele nem chegou ao ‘GOS’. Quando ele falou “vamos soltar os Fo…”, a maioria soltou de uma vez só. A quadra ficou totalmente comprometida e ficou meio metro cheio de… Fumaça por todo lado e aquele cheiro horrível de… Pólvora seca sufocou o ambiente.
Quando a fumaça passou e o cheiro de pólvora diluiu-se na poluída atmosfera, foi gozado, porque os moços fortes de 18 a 22 anos soltaram seus caramurus de 3 tiros, era só “PUM, PUM, PUM!” para todo lado.
As moças soltaram rodinhas (aquelas de prender com prego na parede, nem sei se ainda existem). Faziam um ruidinho longo, “tchiiiiiiiiiiiiisssssssssssssssssi”, com um só “PUM!” no fim.
Os velhos soltavam rojão, mas alguns estavam com a pólvora molhada e o rojão, no lugar de subir, saia meio de lado. E no lugar de estourar para cima, pipocavam mesmo era embaixo. Era gente correndo dos “PUMS!” por tudo quanto era lado.
As velhas, coitadas. Cansadas de andarem pela festa, nem levantaram para soltar. Soltaram os mesmos sentadas. Soltaram aqueles estalos de salão que só dá o seu estalo quando é jogado com força no chão. O ruído é bem fraquinho, só fica “plic, plic”, e o “PUM!” nunca acontece.
Passaram o resto da noite limpando aquela sujeira, meu tio louco da vida morreu sem nunca saber que foi um dos seus sobrinhos o autor da brincadeira. Mas, segundo a mulher dele, cunhada de minha mãe, meu tio morreu desconfiado que o verdadeiro culpado de tudo isso na realidade foi mesmo eu.
E viva Santo Antônio, São João e o querido São Pedro!
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