O Bar deixa de Onda foi inaugurado no início dos anos 60, pelo sr. Antônio, um senhor de muito respeito que tinha o dissabor de ter um filho, vagabundo, que não quis estudar, e além de tudo só andava em más companhias, e para completar o desgosto dos pais, fumava maconha. Na verdade, a implantação deste bar foi uma maneira que seu Antônio teve para tentar dar uma ocupação a seu filho, que até então, não manifestava nenhuma vontade de trabalhar. O Deixa de Onda não era um bar sofisticado, começou como um simples boteco, na Rua Nova Cidade, entre as Ruas Casa do Ator e Gomes de Carvalho, na Vila Olímpia, e lá se servia pinga e cervejas. Sua freqüência era das piores, somente bêbados, que ficavam a maior parte do dia com o umbigo encostado no balcão, pedindo a todos que entravam, que pagassem uma pinga. Os poucos que entravam, sem ser clientes eram os amigos mais próximos do seu Antônio, que diziam a ele para mudar a maneira de trabalhar para espantar os bêbados dali, pois não era possível levar uma mulher tendo o bar àquela freqüência. Quem levou o negócio a sério foi a esposa de seu Antônio, a Da. Teresa, que incentivada por aqueles que moravam nas redondezas e gostavam de freqüentar o bar como um recanto para papear, e também paquerar.
Sendo assim, Da. Teresa começou a cozinhar e a servir almoços, à noite fritava salgadinhos, servia porções de batatas, queijo e mortadela picadinhos regado a um bom óleo estrangeiro, e a bebida passou a ser uísque, Cinzano, Martini, e Chope bem gelado. Daí para frente à freqüência começou a mudar, grupos de jovens, casais e todo o pessoal das redondezas foram atraídos sem muita propaganda, que era, quando muito, na base do boca a boca. Fora o pessoal da redondeza, pessoas que trabalhavam na Vila Olímpia passaram a freqüentar o bar: profissionais liberais, como médicos dentistas, gerentes das grandes indústrias das proximidades, iam toda a tarde tomar aquele aperitivo, para jantar e depois assistir à novela das oito, que naquele tempo, era às oito horas mesmo. Grandes histórias foram contadas no Deixa de Onda, além das histórias reais, tinham também os contadores de piadas e causos, geralmente os caipiras é que tinham grandes histórias do interior, pescadores que juravam contar casos verdadeiros. Começaram a aparecer também os cantores Desafinados é verdade, mas que tinham cantadores lá isso é verdade.
Quem se metia a cantar era o Mário Lúcio, com sua voz bastante grave costumava dizer que o Nelson Gonçalves tinha aprendido com ele e, a partir de então deixou de ser gago. Mário Lúcio morava num cortiço da Rua Gomes de Carvalho, e ali também moravam, o Arnaldo que se dizia violonista e o Crusch que gostava de tocar pandeiro.
Certo dia o Arnaldo resolveu se juntar com o Mário Lúcio e o Crusch e começaram a ensaiar. Era o Arnaldo no violão, o Crusch no pandeiro e o Mário Lúcio a berrar.
– Boêmiaaaa, aqui me tens de regresso!!
Quando eles se julgaram em condições de subir a um palco, o Arnaldo fez inscrição no programa de calouros do Ari Barroso. No domingo à noite, quando eles foram se apresentar no programa, uma televisão foi colocada no bar para que todos pudessem ver o trio que se julgava o máximo, mesmo porque eram poucas as pessoas que tinham televisão naquela época, 1957. O trio se apresentou e não foi gongado, só que o comentário do Ari Barroso, fez com que toda a platéia do bar, morresse de rir.
– Olha, de vocês três. Só escapa o pandeirista. O movimento do Deixa de Onda cresceu tanto que os vizinhos passaram a reclamar dos carros estacionados nas entradas com guia rebaixada, nos portões de entrada. Seu Antônio tomou providências rápidas, e um anúncio no bar foi colocado e uma circular aos vizinhos para reclamar no bar assim que algum cliente viesse a estacionar. Mesmo assim havia os implicantes que mesmo não tendo guia rebaixada, colocavam pregos nos pneus quando algum carro por lá estacionava, era o que acontecia com o vizinho do lado. Já o vizinho da frente que morava sozinho, nunca reclamou de nada. Ficava sempre na janela contemplando o movimento. Só que um dia ele se matou de solidão. Coitado do seu Alfredo, era um viúvo aposentado, vivia sozinho. Seus filhos quando muito vinham no Natal. A empregada tinha se demitido para ganhar um pouco mais, em outro lugar. Ele era muito tímido, nunca ia ao bar bater um papo, quando muito ia comprar cigarros, quando alguém perguntava se estava tudo bem, meneava a cabeça afirmativamente. Figuraça, era seu Oscar era um dos "fundadores" do Deixa de Onda. Era um homem simples, mas dotado de boa cultura. Queria ele transformar o Deixa, num bar temático, estávamos em julho de 1967, as vésperas dos 35 anos do dia em que eclodiu a revolução constitucionalista de 1932. Tínhamos agendado uma solenidade em que seria convidado o poeta Paulo Bonfim para declamar versos de Guilherme de Almeida o poeta da revolução. Mas, um infausto acontecimento enlutou a Vila Olímpia. A morte do Gato. O negro de olhos azuis que encantava senhoritas e senhoras, mesmos as casadas, muitas das quais suas amantes.
Foi Zezo, o autor do crime, tudo por causa de pontos de droga. Dias antes Gato tinha se encontrado comigo na padaria da Rua Ponta Delgada, e foi dizendo: Branco. Dei um puta pau no Zezo na Vila Nova, que se nem imagina. Disseram-me que ele quer me pegar.
Gato era muito bom de briga. Gingava para a esquerda e direita. Dava copeira. Jogava as duas mãos no chão, e mandava o pé na cara do outro com facilidade. Num mano a mano, Zezo não dava nem para o começo. Disse ao Gato: – Negrão, toma cuidado, ele pode te pegar pelas costas. No dia do crime, Gato estava num bar da rua Alvorada, e Zezo parou a bicicleta foi logo dizendo.
– Gato hoje vou te matar. Só não te mato agora para não prejudicar o Bonelli.(o dono do bar).
Subiu a rua Alvorada, entrou na rua baluarte, desceu a Cardoso de Mello, quando ele entrou na rua Nova Cidade, pegou o Gato no meio do quarteirão. Desceu da bicicleta e, com revolver na mão, atirou. Gato quase se atraca com ele. Dois tiros o fulminaram. Um no olho, sinal que Gato pulou em cima dele, e outro no coração. Lá estava um corpo no chão! Gato jazia no asfalto quente. Uma das lendas negativas da Vila Olímpia. Um ser que nasceu para ser vagabundo, ladrão, rufião, e um grande conquistador. Seu nome ninguém sabia. Para todos era o Gato, apelido dado por sua agilidade. Mas eu e mais outro amigo sabíamos seu nome. Foi através de uma foto ofertada por um amigo que mantinha relação com ele que soubemos. Na parte de trás da foto, estava escrito: Ao Edson com prova de grande amor. Com tudo o que ele tinha de mal no sentido moral era uma pessoa agradável como amigo. Para mim um amigo de futebol e bilhar. Pensam que a historia do Deixa de Onda parou aqui? Vocês ainda vão ter fortes "emoções".