Tentava pegar no sono quando de repente ecoou uma barulheira da gota serena. O som estridente de uma guitarra elétrica acompanhava uma voz que berrava "de que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar". No meio da noite havia um maluco cantando uma música que falava de sol e de céu azul.
Compensando as perdas, melhor acordar com a barulheira do Zé do Firmino, do que morrer de medo de dormir enquanto soavam tambores de atabaque e gritos sobrenaturais de entidades que se manifestavam no terreiro de candomblé no meio do quarteirão.
Naqueles tempos de "Jovem Guarda", quando era costume assistir filmes como "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura", no Cine Candelária, no bairro de Vila Maria, só podia mesmo ser o Zé. O danado comprou uma guitarra e resolveu transformar-se no “Rei do Iê-Iê-Iê” do pedaço. Acordou a rua inteira, despertando na vizinhança sentimentos que oscilavam entre ficar com uma baita raiva ou dar risadas da trapalhada fora de hora.
Zé, pernambucano de Tabira, era o exemplo característico de migrante do Nordeste que saíra de sua terra com destino ao sul do país. Falava alto, gargalhava alto, e ouvia discos na vitrola ainda mais alto. O jeito era acostumar e foi isso o que aconteceu com minha família em relação ao “sobradão” ao lado onde moravam alguns daqueles que, mais tarde, passaram a fazer parte de minha família.
Na parte de baixo do sobradão, ficava o depósito de redes de balanço do seu Firmino, em cima morava o Zé e nos porões dormiam, em redes penduradas pelas paredes, um número de pessoas que variava de época para época; eram os vendedores ambulantes de redes.
Zé gostava de barulho, de churrasco e de forró. Coisas que não faltavam no dia a dia do sobradão. Para apimentar um pouco mais, quando um dos vendedores de redes fazia alguma venda gorda, aí a casa tremia. Geralmente o que eles apuravam, basicamente só dava pra comer, às vezes só almoço ou só janta e às vezes nem isso. O esforço era grande para poder comer, beber, vestir e divertir. Dentre os vendedores, me recordo de Flechada, Geraldinho, Boca, Cabelão, Gaguinho e Lorinha.
Geraldinho ganhou na loteria, voltou ao nordeste e viveu vida de rico até o dinheiro acabar, depois retornou a São Paulo e entrou novamente na rotina de vendedor como se a vida de rico jamais lhe tivera acontecido.
Certa vez, Flechada chegou todo sorridente e falante, com brilhantina no cabelo e vestindo roupa nova dos pés ao pescoço. Meu cachorro, Radar, estranhando a transformação, deu-lhe uma mordida arrancando um pedaço da calça nova. O dia virou noite. Flechada se transformou num cangaceiro da peste do sertão. Pegou um baita facão, e, furioso, quis, por tudo no mundo, “esfolar o bucho” do Radar. Foi um Deus nos acuda para segurar o “cabra”. Com o tempo, felizmente, acabou esquecendo a raiva. Retornou para sua cidade e nunca mais ouvi falar dele.
Dois ou três anos depois vieram os irmãos mais novos e as irmãs do Zé. Uns para estudar, outros para trabalhar. Mais tarde, Zé casou-se com Toninha, e aquietou-se por uns tempos. A família ocupou a parte de cima do sobradão.
Em épocas diferentes também vieram Pacífico, Dedinho, Cobrinha e Zé Carlos. Pacífico, um grande amigo, é hoje empresário e nos tornamos compadres depois que batizei seu filho Renato. Um dos irmãos do Zé, Robério de apelido Beba, outro grande amigo, enrolou-me e casou-se com minha irmã caçula. Desse casamento nasceu o Léo e depois o Vinicius.
Zé e Beba partiram fora do combinado muito cedo, como também partiram Jussiê e Adilson. Foi com esses amigos que aprendi a entender o modo alegre e prático de viver do povo do Nordeste. Aprendi a apreciar o baião, o frevo e o forró. E aprendi a gostar da culinária – caldo de mocotó, caldinho de feijão, carne de sol, buchada de bode, tapioca, inhame, macaxeira, cocada e rapadura.
Recordar é bom, mas, às vezes, provoca uma saudade que dói.
(texto redigido em maio de 2007)
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