Um imigrante de fibra que vivia no Brás

Salim era um senhor muito simpático que vendia doces ou frutas na mureta da passagem em frente ao Romão Puiggari. Sua idade eu não sabia, só sei que com sua barba branca, cabelos grisalhos na altura quase do ombro e sua voz rouca falando mal o português, sempre vestido com muita humildade, conseguia fazer a alegria da criançada, inclusive a minha…<br><br>Um dia vendia pêras, no outro tamarindos, machadinha, quebra queixo, geléia colorida e haleu (não sei se escreve assim). Na verdade ele era um ambulante de bom gosto, que durante a semana nos oferecia muitas guloseimas diferentes. Alguns moleques danados as vezes o provocavam xingando e ele ficava bravo. Eu morria de pena!<br><br>Salim morava de favor, perto de casa, em uma pensão também de árabes. Morava em um quartinho no fundo do quintal, muito mal cuidado… Dava pena! Vira e mexe estava com o fígado atacado (era muito amarelo). Lembro que minha mãe fazia um chá para ele melhorar e ele era muito agradecido por isso…Ela também lavava sua roupa.<br><br>Quando ele sarava, lá estava ele no dia seguinte na mureta da passagem para o Romão, em frente à Igreja do Brás.<br><br> Meu horário de aula era na parte da tarde e quando eu me preparava para descer a escadaria da passagem ele segurava minha mão e colocava uma guloseima. Ah! Que sabor tinha aquilo… Eu nunca podia comprar e por mais que eu dissesse que não precisava ele não me deixava ir sem. <br><br>Minha mãe dizia que eu não podia aceitar, pois os trocados que ele ganhava mal davam para o seu sustento. Minha mãe dizia também que ele fazia isso porque se achava em dívida com ela e não era isso que ela queria. Mas por mais que eu me escondesse para ele não me ver, tinha que passar ali para descer a escadaria e lá vinha ele com seu sorriso triste como se aquilo fizesse um bem enorme a ele.<br><br>Assim foi por muito tempo… Terminei o primário, fiz a quinta série e fui para o Ginásio D. Pedro II, no Parque D. Pedro, hoje Colégio São Paulo.<br><br> Continuei vendo o Salim cada vez mais debilitado (minha mãe sempre atenta com os chás). Ele estava cada vez mais magrinho e já não ia vender suas guloseimas… Um dia tivemos que mudar e logo depois soube da sua morte solitária… Acho que morreu de tristeza!Sempre senti muita pena do seu semblante. <br><br>Isso faz muito tempo, mas a imagem daquele velhinho que batalhava para sobreviver em um país estranho, nunca esqueci.<br><br>Na vida, existem anjos que passam por nós disfarçadamente para nos alegrar e enriquecer.<br><br><br>E-mail: [email protected]<br>