Em 1972, estava com vinte anos e desempregado. Morava na Barra Funda e fui até o Posto de Saúde tirar uma Carteira de Saúde, na época documento obrigatório para quem estivesse em busca de emprego. <br><br>Fui até o local e lá fiz amizade com um rapaz, que não me recordo o nome, mas que também estava à procura de emprego. Ao sair me perguntou se poderia me acompanhar, já que eu tinha dito que iria fazer uma entrevista no Grupo Silvio Santos, na Av. Brigadeiro Luis Antonio. Não vi nada de mais em deixá-lo me acompanhar.<br><br>Ao sairmos do Posto o rapaz me surpreendeu: pegou uma maça já mordida e jogada no chão e consumiu ela inteirinha, mas antes me ofereceu um pedaço, que eu, indignado, recusei. Pensei com meus botões: esse cara não deve bater muito bem da cabeça! E eu tinha razão…<br><br>Ao entrarmos no ônibus, ele se jogou no assento ao lado da janela e, com uma força desnecessária, abriu a mesma; entretanto no banco da frente estava um rapaz cochilando com a cabeça encostada na janela e sua orelha ficou prensada entre as janelas. O rapaz deu um grito pela dor e pelo susto. Foi a maior confusão dentro do ônibus: o rapaz com a orelha sangrando querendo bater no meu "amigo" e eu interferindo, tentando apaziguar o conflito gerado. Depois de muito bate boca, conseguimos descer do ônibus, mas não sem antes sermos xingados e ofendidos por quase todos os passageiros. <br><br>Morrendo de vergonha e quase mandando o rapaz me deixar em paz, chegamos ao meu destino. O prédio da entrevista era possuía um elevador com um ascensorista, que o manipulava através de uma manivela, com porta de grade – modelo bem antigo. Ocorre que o ascensorista era um senhor português de idade avançada que aproveitava para entregar a correspondência nos andares quando parava. <br><br>Sem eu falar nada, meu “amigo" começou a implicar o com o senhor português. Dizia que estava demorando muito e que ele ia chegar atrasado (na minha entrevista!). De repente estava criada a confusão! O senhor disse que aquele era o seu trabalho e quem não estivesse satisfeito poderia subir de escada. O clima ficou um pouco pesado e com muito custo conseguimos chegar ao andar desejado.<br><br>Ao chegarmos, eu já tinha me arrependido de ter levado o dito cujo! Fiquei aguardando para ser chamado. Passados alguns minutos, ele sem me avisar ou fazer qualquer comentário, se levanta e vai reclamar junto à recepcionista da demora no atendimento. A moça surpreendida, pois não é comum um candidato reclamar, pergunta seu nome e para qual vaga ele está se candidatando. E não é que ele responde que não é candidato, mas sim eu e aponta o dedo indicador em minha direção. <br><br>Bem, imaginem o clima que ficou na sala! A recepcionista mandando ele se retirar e eu levando uma bronca por ter dado “procuração". Bem a entrevista foi um fiasco, pois fiquei nervoso e tudo mais. Ao sair encontro no corredor o meu “amigo" me esperando perguntando como tinha sido à entrevista. Não sei o que respondi, mas, deixei claro que já estava saturado de suas atitudes. <br><br>Pegamos o elevador para descer, e na primeira parada, quando o ascensorista parou para entregar a correspondência, meu “amigo" resolveu assumir o comando do elevador, falando que não ia esperar o senhor retornar. <br><br>Dito e feito. Mexeu na manivela e começamos a descer. De repente, o elevador estancou entre dois andares. Foi aquela gritaria, principalmente de uma mulher que disse que tinha claustrofobia. O elevador tinha umas seis pessoas e todas gritavam com meu “amigo", que também tinha medo de lugares pequenos. <br><br>Bem daqui a pouco aparece o ascensorista titular bravo, gritando e perguntado quem tinha roubado seu elevador. Quando ele soube quem era, acabou sobrando para mim, pois o português acusava nós dois. Depois de muita confusão tivemos que ser içados, pois a porta não abria, além de sermos quase expurgados de dentro do elevador e do prédio. <br><br>Saímos do prédio com o português e o zelador bravos conosco; pior que meu “amigo", agora em terra firme, chamava todo mundo para briga. Chegando na Av. Brigadeiro, meio atordoado com tanta confusão, fui surpreendido pelo meu “amigo”, que perguntou aonde é que nós iríamos, pois ele tinha gostado muito da minha companhia. Eu lhe falei que nunca mais queria vê-lo na face da Terra e pedi para ele sumir da minha frente. <br><br>E foi o que aconteceu! Nunca mais o vi, mas sua breve passagem ficou marcada para sempre. Em tempo, não fui contratado pelo Silvio Santos.<br><br><br><br>E-mail: [email protected]<br>