Nas asas da Panair

Da primeira vez que fui a Congonhas, não foi para voar. Com sete anos, jamais imaginava que voaria algum dia, a não ser nos vôos diários da imaginação… Tínhamos vindo a São Paulo, meu pai com seu Vauxhall à disposição naquele tempo de raros carros particulares, e minhas tias aproveitaram para pôr os passeios em dia.

Vejo-me cruzando um caminho sob os eucaliptos – o Parque do Ibirapuera ainda não existia – na rota do então longínquo aeroporto. Lá chegados revejo-me novamente: estou sobre um vermelho barranco, que a oeste desce para um bairro quase descampado, o Campo Belo. Hoje não tão belo e muito menos campo.

Atrás de mim, um muro esconde a pista, com murais em baixo relevo, belos painéis em cerâmica referentes à aviação. Que jamais poderiam ser destruídos como foram anos atrás. Não havia a 23 de Maio, nem o estacionamento ajardinado, hoje sepultado por vários pisos de concreto.

Foram estas minhas primeiras impressões do velho aeroporto e nem sonhava que tantas vezes voaria por ele, nem que um dia fosse morar vizinho, no Planalto Paulista, separado por pouco mais do que a futura Avenida Bandeirantes.

Voei pela primeira vez em 1962 com um colega de editora, íamos a Porto Alegre para checar uma cooperativa de desenhistas que estava lá se estabelecendo. Não lembro o avião, se seria ou não da Panair. Mas com certeza da segunda vez, voltando ao sul para lá trabalhar: um velho DC-3 da Real Aerovias, com seu símbolo de bobo da corte.

Quando, em 1977, mudamos para o Planalto Paulista, ficamos ainda mais íntimos de Congonhas. Se por um lado os aviões incomodavam com seus motores, o aeroporto estava ali bem à mão, como o quintal de casa.

Dali partimos para nossas duas primeiras viagens à Europa; da segunda, vindos de Roma, ao descer em Congonhas apanhamos o primeiro táxi que passou ao longo da ala internacional: um fusquinha, e nele amontoamos as malas. Nada de táxi especial, nenhuma frescura. Afinal, até casa só uns dez minutos.

Congonhas ainda era risonho e franco nessa época; era tradicional o hábito de seu cafezinho e o da praia paulistana: subir ao terraço superior para ver as naves em ação. Nada que se compare ao burburinho de hoje: faz algum tempo que não voamos, mas quando fomos acompanhar até lá nosso filho a uma de suas aventuras ecológicas, fiquei pasmo. Multidões, filas imensas, espaços irreconhecíveis.

Onde havia a bela escadaria metálica para o salão de bailes e restaurante, frias escadas rolantes, como num shopping. Na sala circular central, lembrava de um grande mapa na parede, com a rosa dos ventos. Ainda existe, mas é preciso procurar bem, meio oculto pelos balcões de uma loja.

Dos bailes do passado, como o famoso e escandaloso Carnaval do Arakan, restariam apenas lembranças, isto se eu tivesse ido a algum deles… Mea culpa: nunca fui; apenas certa vez ao baile de formatura de uma ex parente.

Congonhas, um dos elos da crise de aeroportos que ensombrece a próxima Copa do Mundo, trazida para um país até agora sem a devida estrutura. E aguardando vôos mais altos em vários setores…

Em 17/07/2007, um avião da TAM, vôo JJ 3054, proveniente de Porto Alegre, não conseguiu frear e arremeteu pela pista, como um bólido. Atravessou o espaço sobre a 23 de Maio e explodiu contra um prédio da mesma companhia. Uma catástrofe ainda na memória de todos.

O ponto de onde ele saltou da pista era o mesmo de minha primeira lembrança de Congonhas, o barranco vermelho com o desabitado Campo Belo como fundo. Coisas de um aeroporto engolido pela cidade, que como Chronos, o Tempo, devora seus próprios filhos.

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