História Urbana de Vila Pompéia

O Luigi Carmenieri, filho de imigrantes italianos recém-chegados ao Brasil, era aluno efetivo, matriculado no segundo ano do curso primário do Externato Rangel Pestana, na Avenida Pompéia. Em consequência de fatores econômicos da família, foi transferido do ensino particular para o ensino publico estadual num prédio recém-inaugurado nas confluências das Ruas Caraíbas e Padre Chico.

Pertencia ele à primeira turma de estudantes iniciantes, logo após a entrega da nova unidade do grupo escolar Miss Browne no bairro de Vila Pompéia.

O professor José de Castro, primeiro diretor da instituição de ensino estadual, obrigava os alunos todos os dias, antes do início das aulas, numa atitude louvável e patriótica, fazer que os alunos se perfilassem diante da bandeira nacional e entoassem o hino da pátria com a mão direita encostada no peito na altura do coração. O pequeno Luigi Carmenieri, um italianinho nascido na região de Abruzzo, na província de L'Aquilla, havia vindo recentemente para o Brasil, com o pai a mãe e duas irmãs e tinha alguma dificuldade de entoar o hino nacional brasileiro. Apenas balbuciava com os lábios semi-cerrados algumas estrofes sem sentido lógico.

O Carmenieri morava com toda a família atrás da escola, na Rua Venâncio Aires, 207, no cortiço de propriedade de um patrício do pai, o Francesco Pietrobono, homem sisudo, fuinha, e de poucas palavras. Apesar de tudo, aquele lugar era uma benção de Deus, porque além da facilidade de locomoção, não tinha que se preocupar com os gastos com a condução.

Ia e voltava a pé da escola. Quando estava de folga dos deveres escolares, na parte da tarde, tinha conseguido na secretaria do Palestra Itália um cartão senha que dava o direito de entrar no clube, sem ser associado, para trabalhar nas quadras de esporte, como gandula de bola de tênis. Ganhava alguns trocados após o fim das partidas. Sua função especifica era armar a rede trançada no meio da quadra, rodando a manivela da catraca para esticá-la adequadamente e entregar a bola aos jogadores.

O Carmenieri era pequeno. Tinha aproximadamente um metro e dez de altura. O seu rosto ficava nivelado com o da catraca. Numa ocasião, depois de girar a manivela, a rede se soltou, a catraca girou em sentido contrário acertando-lhes em cheio o osso do nariz. Com o impacto, o Carmenieri caiu. O osso tinha se esfacelado todo.

Depois de passar como de costume pelo dono da farmácia do bairro, o Crispim, que era o curandeiro oficial da comunidade, e visto a gravidade do caso, lá se foi o moleque encaminhado para o Hospital da Clinicas para os devidos cuidados médicos. Ficou com alguma sequela. O nariz afundava igual ao dos pugilistas depois de serem socados muitas vezes. Vez ou outra tinha alguma infecção oportunista, mas respondia bem ao tratamento com antibióticos. E num breve espaço de tempo se recuperou logo do estrago.

Durante os jogos de futebol, geralmente à noite, ele e a molecada da Rua Venâncio Aires tomavam conta dos automóveis que vinham dos quatro cantos da cidade estacionar no entorno das ruas do Palestra Itália. Na época, os automóveis eram todos importados, usando na traseira o gazogênio como combustível que substituía a já escassa gasolina, devido ao grande conflito da segunda grande guerra mundial.

Fora também engraxate. Construíra a sua própria caixa de engraxar com três tabuas lustrosas em forma de triângulo, com um pé de madeira para apoio do sapato. Tinha uma lata de graxa preta, outra marrom uma flanela macia para dar lustro, uma escova de cerdas preta e outra de cerdas marrom.

Rabiscou num pedaço de papelão que havia recolhido na rua: "Engraxa-se os sapatos com perfeição a quinhentos réis o par." Naquelas múltiplas atividades, conseguia também ganhar alguns trocados que somados ao de gandula das quadras de tênis e guardador de automóveis dava para economizar durante a semana alguns tostões e comprar muitos doces na venda do Badico e adquirir ainda, o ingresso para a seção de cinema na matinê aos domingos na Rua Cotoxó, nos Altos de Vila Pompéia.

Dona Assumpta, a mãe do menino, era de uma religiosidade extrema, devota de Nossa Senhora do Rosário de Pompéia, estava contribuindo junto com a comunidade para a construção do primeiro hospital da região, o São Camilo.

O Carmenieri havia estreado sua primeira calça comprida no casamento da Josefina, uma moça italiana, amiga íntima de sua irmã Carmela, que também morava no cortiço do Francesco na Rua Venâncio Aires. O Carmenieri, porém, tinha uma ambição. Quando fosse maior de idade, iria ser golquíper do Palestra Itália.

Admirava o Oberdan Catani. Tinha visto e revisto várias vezes ele jogar e queria ser como ele, um grande goleiro. Um dia, durante um treino, o Jair da Rosa Pinto bateu uma falta. O homem tinha um canhão potente. A bola partiu com uma velocidade extrema, o Oberdan pulou no canto esquerdo, a bola passou como um bólido debaixo de suas pernas e arrebentou a rede.
– Goool! – gritou inocentemente o Carmenieri que estava logo atrás do cercadinho de madeira da arquibancada que separava o campo de futebol da calçada de pedregulho, logo atrás do gol.
– Que frango, Oberdan! – gritou o moleque. O goleiro não gostou.
Empertigou-se todo, segurou as amarras do elástico do calção com uma das mãos, cerrou os punhos, soltou faíscas pelas ventas, falou três ou quatro palavrões, olhou furiosamente para o Carmenieri, pulou o cercadinho, e saiu correndo atrás do moleque.

O Carmenieri era ligeiro, muito ágio e se escafedeu pelas arquibancadas de madeira atrás do gol, e sumiu em direção ao portão da Avenida Francisco Matarazzo. Com certeza, havia dado uma mancada. Afinal das contas, o goleiro era seu ídolo.

E agora? O seu tão sonhado desejo de jogar no time do Palestra Itália, acabava por ali. O Oberdan era muito influente na diretoria e jamais iria perdoar aquele moleque sem compostura que ficava achincalhando atrás do gol. Mas será que com o decorrer do tempo o Oberdan se lembraria dele? Achou que sim.

E o tempo passou e o Carmenieri não estava mais disposto a jogar no Palestra Itália Não soube explicar, não tinha nenhum sentido aquela afirmação de seu ego, aquela falha na personalidade, apesar de tudo, contra a vontade de sua família, todos italianos legítimos tinha ele, o Carmenieri acabado de virar corintiano.

– Porco canne! – Gritou o pai furioso com aquela repentina decisão.
O Giuseppe Carmenieri não se conformava com a atitude do filho. Afinal das contas, todos da família eram palmeirenses. Mas o pai, como bom italiano, amoroso, generoso, justo e fiel ao extremo com os cuidados da família, acabou aceitando a preferência do filho.

O Carmenieri havia arrancado da capa de chuva do pai alguns botões graúdos e estava colecionando outros das roupas das irmãs e iria montar o seu pequeno time de futebol de botões. A bola era feita de miolo de pão amassado na água até secar. Depois de adquirir consistência, ela deslizava com facilidade no cimentado da calçada na frente da casa do Victor alemão.

O Antonio, irmão mais velho do Victor, efetivamente não estava muito interessado naquele jogo de botão. O seu negócio era fazer balões. Fazia vários modelos. Um balão caixa de oito folhas, um pião de dez folhas, uma mexerica de dezesseis folhas, o careca de padre, a estrela de quatro gomos, um charuto comprido. E havia, também, o famoso Zeppelin de quatro bocas, todos feitos de papel de seda colorido que seriam soltos no dia de Santo Antonio.

Geralmente as mechas eram feitas em forma de cruz, enroladas na estopa carregadas de breu e parafina depois de entrelaçadas e firmadas com arame resistente, eram deixadas de molho na lata de querosene no fundo do quintal.

À noitinha, a molecada da rua se reunia na calçada em frente da casa do Zé Vausnikia, desenrolava os balões, acertava o arame da tocha no meio da boca, virava ao contrário, o bico para cima, segurando os gomos afastados para não queimar e acendiam a mecha. O breu pingava como torneira de fogo no chão de terra batida. Lentamente o calor ia inchando, enchendo-o de fumaça o seu interior. Ao sentir o suave balanço do balão, a molecada gritava:
– Solta, solta!
E ele subia a principio vagarosamente, depois mais rapidamente até encontrar uma corrente de ar mais acima e fazia-se deslizar ao sabor do vento brando. A alegria era geral. O Carmenieri ficou olhando fascinado aquele seu primeiro balão que subia lentamente rodopiando no seu próprio eixo rumo ao desconhecido.

Lá ia ele entre tantos outros, colorindo os céus da cidade de São Paulo, como se fosse mais um no meio de centenas de outras estrelas piscantes dispersas em pontinhos luminosos, entre as nuvens na garoa fina que caia na vertical empurrada por um vento na horizontal frio e úmido, naquele dia de domingo festivo no bairro urbano da saudosa e sempre eterna Vila Pompéia.

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