A Lagoa Azul

Quando a lagoa surgiu ou quanto tempo durou, ninguém sabe. Nasceu como uma dádiva da várzea. Ficava ali, no lugar onde hoje se encontra o Serviço Funerário do Município, bem no limite entre Vila Maria e o Parque Novo Mundo, nas proximidades da margem direita do Rio Tietê, com o qual se comunicava por um canal ligado a uma grande alça que o rio percorria naquela região.

A certa distância, na margem oposta do rio, podia-se ver umas tantas olarias, que se erguiam altivas, quais medievos castelos, lá pelas bandas do Tatuapé. Eram, em nossa imaginação, fortalezas a desafiar nossa audácia de pretensos Lancelotes.

A lagoa era grande. Se a memória não nos trai, calculamos que devesse ter uns 40 metros de diâmetro e uma profundidade máxima de um metro e meio. Sua água era límpida, multo transparente e, espelhando o céu, refletia sua cor característica, fato que lhe valeu a denominação de Lagoa Azul.

Em todo o perímetro a lagoa era cercada por cerrada vegetação ciliar que a abrigava e ocultava, fazendo dela um recanto privativo e exclusivo de alguns privilegiados e corajosos frequentadores.

Nos anos 40, quando a conheci, o acesso a ela era ainda difícil. A única clareira aberta na várzea era ocupada pelas olarias dos Poli, em área onde hoje se encontra a Empresa Auto Viação Cometa, à margem da Via Dutra, quase em frente ao Viaduto Curuçá. Chegava-se à lagoa pelo Parque Novo Mundo, através de uma picada aberta no mato, que ladeava a Indústria de Válvulas ACEPAM, ali estabelecida com sua fábrica pioneira desde 1936, em plena várzea.

Era comum, naquela época, encontrar bandos de garotos que para desfrutar da tranquilidade das águas da lagoa, aventuravam-se a fazer o perigoso percurso. Da trilha ouvia-se o guizo das cascavéis que infestavam a região. Entrar no mato? Nem pensar! Além das cobras, a vegetação espinhenta agredia a todos os invasores com profundos arranhões. As mimosáceas do brejo não eram tão mimosas quanto sugere o nome da família. Às vezes, os despreocupados moleques detinham-se pelo caminho, saboreando um araçá aqui, um morango acolá, ou mesmo, algum maracujá do mato. Quase sempre, chegava-se à lagoa! – Quase sempre, porque quando se encontram grupos rivais, o tempo esquentava. Os menos hábeis na briga ou menos numerosos tinham que debandar. Obviamente, apesar de grande, a lagoa só comportava um grupo por vez.

Para a molecada, a lagoa era uma verdadeira academia de natação. Aprendia-se ali as primeiras braçadas e mergulhos. Depois de certo treinamento, o neófito já se arriscava a nadar no rio (o Tietê, é óbvio!). Primeiro junto à margem, a favor da corrente, depois, até à metade do canal. Poderia ser considerado um campeão quando, ao superar-se, fazia a travessia ida e volta, sob os aplausos da gaiata torcida. Aprovado por seus pares o herói sentia-se no alto do pódio, super atleta recebendo a glória olímpica. Isto quando não lhe pregavam uma peça! – O nosso glorioso herói ao regressar da outra margem poderia não encontrar mais, nem a sua turma, nem a sua roupa. Como Deus o pôs no mundo, era assim que se nadava então por estas bandas, o laureado atleta punha-se a caminho, na certeza de encontrar sua turma mais adiante. No grupo só se fazia isso por troça. Amanhã poderia ser a nossa vez.

Assim a bela, serena e límpida Lagoa Azul cumpria o seu papel acadêmico, possibilitando a cada um o aprendizado da arte de Johnny Weismuller, por todos admirado nas matinês de domingo, na pele de Tarzan. Certamente não havia jacarés na lagoa, mas a imaginação criativa os inventava. Assim, um galho de árvore que flutuasse ao lado do nadador era "engravatado" e ia ao fundo com o herói, num sensacional mergulho. De volta à superfície, afastado com um soco, o "jacaré" era atirado à distância. Com vigorosas braçadas nosso herói, então, atravessava a lagoa para salvar uma imaginária Jane. Olhava para a outra margem e "via" um Chimpanzé batendo palmas e fazendo macaquices. Era Chita que aplaudia. Sentia-se agora o próprio herói de Edgar Rice Borroughs. Versatilidade e imaginação, não faltavam aos garotos do nosso bairro, Êmulos de Tom Sawyer e de Hockleberry Finnn, com eles rivalizavam em criatividade, simpatia e charme.

Nos anos 50 o Rio Tietê foi retificado, foi construída a Via Dutra e a lagoa foi aterrada. Que pena! No lugar onde existiu a bela Lagoa Azul, tão cheia de vida e de alegria foram construir justo aquele edifício fúnebre, ao redor do qual se instalou a primeira grande favela de Vila Maria – a Favela da Funerária. É o destino…

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