CR Flamengo da Vila Olímpia

O Flamengo da Vila Olímpia tinha sido um clube dos mais respeitados do bairro. Porém de uma hora para outra ficou parado. No inicio dos anos 50 a molecada pegou as camisas que estavam guardadas, e com ordem dos diretores passaram a usá-las. A partir daí começou a jogar. Como a maioria do time era de garotos de 15 a 18 anos, o time era chamado de Flamenguinho. Não tinha campo e jogava sempre no campo do adversário. Sempre no domingo à tarde, seus adversários eram times formados por adultos. Era difícil encontrar um adversário cujo time de jogadores da nossa idade. Mesmo assim dávamos um banho de bola em muitos times. Como jogávamos bola sempre juntos estávamos bem entrosados. Tomávamos muitos pontapés devido ao atrevimento de muitos que driblavam num autentico desrespeito aos mais velhos. Pelé um crioulinho que jogava com uma meia de mulher na cabeça, era o verdadeiro diabo em campo, era o terror dos adversários. Tinha também o Feió. Era o apelido de um garoto chamado Sergio, que era mais feio do que a sogra do diabo. A molecada na gozação gritava: Feió, toma bonitó. O interessante é que ele levava tudo na brincadeira, já que também era um gozador. Além de feio, era ruim de bola, e como ele era da turma desde o tempo que jogávamos descalço, tinha vez no time. E como todo ruim de bola ou ia para a ponta esquerda ou no gol. Ele preferiu o gol. E não é que ele estava catando bem? Um dia (1959) fomos jogar na favela do Vergueiro (a primeira favela de São Paulo). Um campo de terra vermelha, cercado de favelados por todo lado. Como sempre a molecada dava seu Show de bola, e como o campo era de terra a bola não pulava muito, e os passes saiam redondinhos, os dribles também. Um monte de maloqueiros passou a torcer para nos. Isso era comum, porque éramos todos moleques raquíticos. De repente os adversários começavam a marcar um gol atrás do outro. Quando eles marcaram o sexto, fui ate o Feió, e falei: Assim não dá, pomba. A gente sua a camisa aqui e você deixa passar tudo! Ele estava mais branco do que palhaço quando passava Alvaiade na cara. – Olha ta vendo aquele cara ali? – Sei, to vendo, o que tem ele? -Ele faaalô, queee, see, euuu.. Não deixar a bola passar, vai dar uma facada na minha bunda. Perdemos o jogo de oito a zero. Na vila Maria, fomos jogar certa ocasião. (1960) Ali quem fazia xixi fora do pinico, apanhava pra burro. O campo era numa baixada com morros dos dois lados do campo. Num dos morros estava escrito: JANIO VEM AI. Estava eu jogando de Half direito (volante de contenção nos dias de hoje). Estava tomando um baile do meia esquerda adversário. Passei a marcá-lo em cima e os dribles continuaram. Então desci a bota no cara, que nem reclamava, ele queria mesmo era driblar. Quando estava perto do árbitro, vi por baixo da camisa um revólver que tinha o cano cromado. Ai comecei a jogar "direitinho." Respeito é bom e todo mundo gosta, inclusive eu. Aos poucos o pessoal adulto foi voltando e muitos dos garotos continuaram no time. Sua reestruturação se deu em 1962. Foi formado um time de peso. A diretoria tinha seu Gê (Jesuíno) como presidente. Celestino padeiro como vice. Celestino leiteiro tesoureiro. Malvino Pereira diretor esportivo. Eu, como secretário geral. O Flamengo era por demais conhecido em Santo Amaro. Seu grande adversário era o Palmeirinha de Santo Amaro onde jogava um meia esquerda Marin. Que foi vereador, deputado estadual, vice-governador de Paulo Maluf e depois governador de São Paulo. Entramos no campeonato de Santo Amaro, embora fosse um time da Vila Olímpia, que ficava bem na divisa do Brooklin que pertencia ao sub Distrito de Santo Amaro. Num jogo contra o Vila Arriete, no campo adversário, tinha tudo para ser um jogo normal, como muitos outros tinham sido. Porém Gato, que não estava jogando e era um tremendo arreliento, cismou de pegar uma fruta de um vendedor que vendia na beirada do campo. O vendedor era um Baiano de corpo tipo armário. Tentou reaver a fruta não conseguindo. Pegou uma faca que mais parecia uma foice. Daí surgiu uma grande briga, com aquele corre corre normal, num entrevero. Uma pedrada na cabeça do Gato, espirrando sangue em abundancia deixou o crioulo feito louco, e ninguém conseguia segura-lo. Izaias um daqueles que não tendo o que fazer era um grande predador. Pegou uma enxada que tinha sido usado para fazer as linhas do campo e deu no vidro traseiro do táxi que estava à disposição do arbitro da Federação Paulista de Futebol, escalado para apitar aquela partida. Isso porque o vendedor um Baiano muito forte que tinha escapado do cerco dos torcedores do Flamengo que eram muitos. Se refugiando no táxi. O jogo terminou depois de poucos minutos de iniciado. O Gato foi levado ao pronto socorro de Santo Amaro, devido ao corte na cabeça. Quem o levou foi o Zé Gaiola e o Dilú. Quando o policial viu que se tratava do Gato um ladrão procurado pela policia foi detido pelo delegado de plantão no pronto socorro. Enquanto estava naquela burocracia para o boletim de ocorrência, Gato pediu para ir ao banheiro. Uma janela de correr fez com que ele corre-se de lá. E, quem ficou detido foram o Dilú e o Zé gaiola que tinham levado ele para ser socorrido. Depois de muito conversar os diretores do flamengo conseguiram libertar os dois. Mas ai eram duas horas da madrugada de segunda feira. Em outra ocasião fomos jogar novamente no campo do Vila Arriete, que tinha uma forte amizade com o Flamengo, (as diretorias) era um festival e o Flamengo era o convidado para fechar a festa. O jogo final o troféu era sempre o maior. O flamengo estava estreando sua camisa nova, ofertada por Paulo Amparo, o candidato a vereador que tínhamos apoiado. Era uma camisa igual a do Flamengo do Rio de Janeiro. Só que com gola, mangas compridas e números em Algarismo Romano. O que fazia o time ter cada vês mais torcedores. Estávamos ganhando por 2 x 1, e o juiz não acabava o jogo, já tendo esgotado o tempo. Candinho nosso meia esquerda começou a driblar para passar o tempo, levou um ponta pé daqueles que quebra a perna. Já estava escurecendo. Ai, todas as mulheres que estavam torcendo pelo time da casa se revoltaram, pegaram o troféu, invadiram o campo e nos entregaram. Dizendo ao árbitro: O jogo acabou. Eles venceram. Eram as chamadas mulheres Cabras da Peste. Outra passagem que não da para esquecer, foi contra o Palmeiras do Planalto Paulista, no campo deles. Eu era zagueiro direito, e como tal marcava o ponta esquerda, que por sinal tinha o meu nome. Mario. A diferença dele para mim era que ele não tinha os dois braços. Tinha abaixo dos ombros apenas dedinhos. Quando vi, fiquei branco. Meu Deus o quê que eu faço? Marcava ele de longe para não encostar. Nem queria pensar em vê-lo no chão. Minha especialidade para intimidar adversários. Anos mais tarde estava na padaria Samaro (avenida Sto Amaro esquina sa Prof. Whaia de Abreu) conversava com um negro alto, que me pedia para doar sangue para um familiar. Contei para ele daquele jogo, que tinha o tal de Mario sem braços. Ele sorriu e disse: Aquele Mário, é meu irmão. Em 1965, num domingo fui ao Pacaembu, e encontrei o Feió, na Rua Alvorada (Vila Olímpia) ele ia jogar bola com uns amigos. Quando voltei para casa às 22 horas, tinha um corpo caído quase na porta da minha casa. A vitima, tinha sido assassinado, por causa de uma namorada. Quando levantei o jornal que cobria o corpo, lá estava inerte deitado em decúbito dorsal o Feió.