A voz da Lua

Fazer caminhadas pelo bairro é um bom hábito. Faz bem aos ossos, tendões e coração.

Mas, vai mais além. Aguça a mente e a imaginação. Ás vezes, ao passar pela primeira vez por um lugar, nada notamos. Mas com a repetição, começam a surgir coisas insuspeitadas, que nada nos diriam de primeira. Uma pequena modificação, um detalhe quase imperceptível, e nos deparamos com as sombras do misterio, em pleno dia-a dia.

Numa das principais ruas que cortam o Brooklin chamado Novo ou Paulista, um sobradinho chamou nossa atenção. O que tinha ele? Quase nada. Pequeno, bem cuidado, com uma parreira cobrindo sua área externa. Mas, da segunda vez que se passa ali, percebe-se que a porta está sempre aberta. E o portão, também. Caso raro, aqui em São Paulo. Ás vezes embalagens de alumínio com restos de comida, sinais de desleixo, na frente. Em outros dias, não, tudo está varridinho.

Aí um dia você começa a ver as pessoas que o habitam. E a compreender. Vemos saindo dali uma senhora, quase bem arrumada, mas com toques exóticos: as roupas meio puídas, uma pelerine sobre os ombros, resmungando algo sozinha. E outras assim, homens e mulheres, com algum cuidado com a aparência, mas sempre com um algo estranho, a barba por fazer, as roupas como saídas de um brechó.

E girando meio perdidos pelo bairro, num mundo à parte. Mas sem incomodar ninguém, ou talvez pedindo, às vezes, um trocado, respeitosamente. Serão loucos, que se reuniram numa associação, talvez amparada por uma boa alma?

Quando falamos em loucura, a primeira associação é com pessoas alucinadas e perigosas, a roupa em frangalhos, os gestos desabridos, a berrar sua insanidade aos quatro ventos.

Não é o caso. Talvez sejam apenas lunáticos, vivem normalmente parte de seu tempo, até sentirem os eflúvios e a voz da Lua, sussurrando em seus ouvidos.

Tentarão, como no filme de Fellini, ouvir a voz que vem dos poços? Mas os poços de São Paulo ficaram atirados para a periferia, e sem estes oráculos para se aconselharem, as pobres criaturas tentam manter seu equilíbrio no caos da grande cidade. Talvez a casinha como ponto de reunião lhes dê força e esperança, para enfrentar a loucura muito maior que reina nos semáforos, nos viadutos, nas grandes avenidas, onde o troar das máquinas abafam qualquer reflexão.

Ficamos surdos e insensíveis, mas não eles, sustentados pelas vozes de seu estranho mundo interior, que pode manifestar-se a salvo no espaço dessa minúscula casa do Brooklin Novo.