Conversando com São Paulo, no dia do seus aniversário.
Hoje eu esqueci a pressa que tu mesma me ensinaste a ter. Hoje não importa o urgir do tempo e nem o sucessivo e preocupante despegar dos dias no calendário. A agenda que aprisiona o meu tempo foi esquecida na gaveta. Neste momento sou teu. E tu és minha.
A paixão surgiu, acredito, quando abri os olhos para vida.
Deve ter sido, provavelmente, naquela viagem dentro de uma velha Dodge, da maternidade para a minha casa, que eu através da janela te espiei. E me espiaste. Enfim, nos espionamos, medindo possibilidades…
Hoje, 62 anos depois estou aqui para falar-te do amor que sinto por ti. Amor sempre intenso e igual – assim, do primeiro ao meu último dia.
Ainda a pouco, lembrei das velhas canções que fizeram para ti. Canções que desvelavam a sua vida em um tempo que eu não conheci…
Não conheci "teus sobrados de longos telhados", caiados com o ocre e o branco retirados da tabatinga, nem as tuas ruas estreitas, solarenga às vezes, ou lavadas por tempestades, nem mesmo as vi envolvidas em tua garoa intermitente que, do mês de junho prolongava-se até dezembro. Não conheci, ao longo da Rua de São Gonçalo, próximo à Velha Sé, o casario em cujos quintais predominavam jabuticabeiras e cambucís.
Ah! Tu eras qual uma menina-moça a sonhar sonhos perdida entre os perfumes da luxuriante vegetação que te envolvia… Esperavas na esperança e sonhavas felicidade…
Como sei de tudo isso sobre ti? É que li o relato de tantos outros, teus amantes, a revelar-te para mim. Vi as aquarelas que fizeram de ti. Vi as fotos do Militão Augusto de Azevedo, o primeiro a fotografar-te, desnudando teu corpo, fixando tua imagem para a posteridade… Eu deveria ter ciúmes. Mas não tenho. Afinal é impossível não amar-te. Não conheci os teus lampiões de gás, mas mesmo assim tenho saudades.
Nostalgia do tempo que, em ti, os jovens faziam serestas ao luar; tempos em que, principalmente no Brás, a luz mortiça dos lampiões iluminava as festas de rua, onde se bailavam "flamencos" e "tarantelle" ancestrais. E de tuas outras luzes falaram-me os teus amantes: Contaram-me que sob tocheiros de óleo de baleia, a tua gente dançava lundus e cantava acompanhada pela viola, músicas dolentes; que sob as luzes dos lampiões de querosene, os estudantes da Faculdade de Direito, embuçados, movimentavam-se em ti, maquinado e executando suas brincadeiras, ou entrando em certas casas do Piques para visitar damas que à luz do dia, não se visitava nunca…
Estás tão corada, minha linda! Afrontei teus pudores com o que disse? Pudores… Tu, depois de tantos séculos ainda os tens!… Tu me desconcertas! Pois tu mesma me ensinaste a não me arrepender nunca pelo que fiz de bom ou de ruim, nem mesmo daquilo que não fiz e poderia ter feito. Disseste-me que tudo é aprendizado.
Esqueça! Fica o dito por não dito. Eu também tenho cá os meus pudores e certo moralismo…
Não te vi brilhando às luzes dos lampiões, como também não te vi guerreira, revolucionária, ao som de "Paris Belfort", exigindo a Constituição. Não caminhei pela Barão de Itapetininga gritando por ela e formado barricadas. Não invadi o PPP e não fui ferido à bala. Não te dei o meu sangue. Pena!
Tantos fatos que tu viveste e que eu não vivi em ti… Fazer o que? Eu vim depois…
E vim de longe! O meu gene transpôs um oceano para que eu nascesse em ti e cumprisse o meu destino.
Muita coisa não vi em ti. Mas vi teus brilhos de luz elétrica, andei nos teus bondes remanescentes. Não te vi Vila, não te vi Cidade. Tu já eras Metrópole! Mas te vi transmutar-se em Megalópole… És tão grande. Magna et magnífica! O quê devo ainda esperar de ti?…
Corada outra vez? Incomodam a ti as lisonjas merecidas? Tu sempre me surpreendes! Agora tu estás ai, a provar-me que não és fria e insensível como dizem… Corada estás, que fique então! Tenho mais a dizer.
Eu te vi linda, esplendorosa naquele dia 25 de janeiro de 1954! Brilhavas como o sol, diante dos teus amantes que te homenageavam e te aplaudiam ao som de Mario Zan, tocando o seu hino do teu IV Centenário. Eras a "São Paulo Quatrocentão"!
E a Espiral Ascendente, símbolo dos teus 400 anos, serve-me até hoje para revelar a dimensão do meu amor por ti. Crescente sempre! Ad infinitum…
E o tempo a passar, leva-me a cumprir em ti o meu destino. Cresci, tornei-me adulto e muitas vezes me adulterei por condições e mesmo por desculpas… Vive-se e se aprende. Eu aprendi.
Em ti encontrei os meios de sobrevivência. Lá me fui a fazer parte daquele universo que ad aeternum sustenta a cidade e se sustenta: "São Paulo que amanhece trabalhando, São Paulo que não para de crescer. (…) Na reza do Paulista, trabalho é o Padre Nosso. É a prece de quem luta e quer vencer"!
Trabalho! Trabalho! Vivi e vou vivendo contigo. E tempo, cadê o tempo que eu sempre tinha? Não tenho tempo! Como não? Então reinvento o tempo!
E passei a ter tempo. Tempo de sair por ai, viver de ti, viver contigo. Sair por ai a cantar "São, São Paulo, meu amor"…
Agora, aqui estamos nós em perfeita simbiose. Sem ter que pedir perdão ou desculpas um ao outro. E a frase do poeta Torquato Neto nos define bem: "A gente nasce para o que se é". O que importa é que me amas e eu te amo.
E é um momento importante este. Pois quero reafirmar o imenso amor que tenho por ti. Um amor que nasceu no século XX e continua pelo século XXI. Um amor perfeito que saiu do milênio passado, entrou neste e seguirá pela eternidade.
Amo-te por tudo o que me deste, pelo que não me deste. Peço-te apenas que nunca me deixes. Foste o meu berço. Não me negue em ti a sepultura.
Feliz Aniversário, minha linda! Fazes 457 anos. Eu, dois dias depois de ti faço os meus 63.
Como assim – estás velha? Que diferença de idade? Não dramatize, por favor! Acaso esqueceste que és eterna? Que eu sou eterno em ti? Tu és a minha São Paulo. Eu sou o teu Paulistano. Somos eternos, não temos idade…
E-mail: [email protected]