Quando mudamos para São Paulo

Pequenos fios d'água são assim.
Andando à esquerda da serra do Caracol, transpõe-se o rio – riacho – do mesmo nome, que nasce nos campos, ou corta os campos. Não sei bem.
À direita – isso de quem olha de frente, costas pra São Paulo/frente pra Poços de Caldas – tem a cachoeira do Stella. Ao centro, corre um fiozinho d'água que já teve muitos nomes, mas o mais especial, ou o único que sei é que era o riachinho dos trocates. Meu riozinho!
Era a água mais purinha; a mais gostosa que já tomei. Sombreado por touceiras de inhames, taiobas (Aquela agüinha fresca que balançava na folha e escorria, brilhando ao sol) e outras plantinhas ribeirinhas, meu riachinho fugia sempre em direção à cidade, levava consigo meus barquinhos de bananeira, meus moinhos de palito de sorvete, meus brinquedinhos de palha de milho, minha bolinha de borracha que uma noite sonhei que rodou. Lá ia ele, descendo, descendo sempre e lavando minha alma, levando minha vida. Acho que fui com ele.
Não sei bem o que aconteceu, mas um dia me falaram de ir embora. São Paulo. E as coisas aconteceram rápido. O caminhão. A Via Anhangüera. De repente me vi sozinho. O que tinha sido tão bom ficou na memória (este "lugar" triste e belo que tanto nos faz sofrer). Creio que tinha que ser assim. O destino já está escrito, ou dizem que está, e tinha que ser assim. Mas arrancar um menininho do lugar em que nasceu (um lugar lindo, desproporcionalmente encantador) e joga-lo no meio da voragem não é uma coisa boa. Não pode ser. E assim, as cores claras fugiram; o cinza passou a dar o tom. Claro que tudo tem suas compensações porque se assim não fosse seríamos aniquilados a cada minuto e então, neste mundo novo, busquei estas compensações nos livros, nos estudos, na televisão, até. Substituí o real pelo imaginário e assim, se antes eu vivia numa espécie de paraíso, trouxe este paraíso pra dentro de mim.
Se já não tinha a Bainha, nossa égua, ou a Bestinha, nossa mula, tinha o Silver, o Escoteiro, o Tornado, o Herói (meninos antigos sabem do que estou falando: Silver era o cavalo do Lone Ranger, Escoteiro era o cavalo do Tonto, Tornado era o cavalo do Zorro e Herói o cavalo do Fantasma). Se não tinha o cachorrinho Peri, a TV me dava a Lassie, o Lobo do Vigilante Rodoviário e o Rin-tin-tin. Se já não tinha mais os velhos trocates reunidos no banco longo na cozinha da madrinha e suas histórias de tempos antigos, histórias de assombração, de escravos fugidos eu tinha agora os gibis do Flecha Ligeira, do Cavaleiro Negro. Com o tempo veio a escola, fui deixando de lado os gibis (mas não totalmente, gosto de gibis até hoje) e me atirando por inteiro nos livros e foi um nunca acabar de ler – lia, relia e a cada releitura descobria coisas novas, belas – Monteiro Lobato, Robinson Crusoé, D. Quixote, Fogo Morto, O Leopardo, Os três mosqueteiros, folhetins, Sinclair das ilhas e tantos outros. E os filmes, aqueles filmes de então? Bonanza, O marcado, Caravana, O paladino do Oeste, A árvore mais alta, Álamo, Rastros de ódio, James Dean. Um eterno suceder-se de sensações.
Dentre tantas novas descobertas, tinha o futebol. Em minha cidade víamos jogos do Rio Branco – hoje time profissional, mas que na época era amador – e achávamos o máximo. Aqui, conheci o Santos. O incrível Santos de Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Foi um amor de criança destes que dura uma vida inteira e mais um pouco. Hoje, quando meu filho João Victor chora ao ver o Santos perder, fico brabo com ele, não posso confessar – ou será que posso? – que já chorei também e que, se hoje não choro, vontade não falta.
A vida acontece todo dia e lembranças não podem ser amargas (estas têm que ser sutilmente descartadas). Só as coisas boas têm lugar reservado na memória. Talvez este seja o único segredo da felicidade. O riachinho – que ainda insiste em correr pro mar – vira mar todos os dias, mas o ciclo da natureza o leva invariavelmente de volta pra terra. Claro que há apenas uma infinitesimal probabilidade de que um dia uma gotícula de suas águas seja resgatada do oceano atlântico, viaje em forma de nuvem por sobre tanta terra, tanta serra, tanto mar e caia novamente no colo da serra do Caracol, no cafezal do Tiãozinho Trocate e corra livre morro abaixo. Irrigue outras hortas, abrigue outras pererecas, alegre outros olhos pequeninos, leve em suas águas outras bolinhas, outros sonhos de menino. Sempre em busca do mar. Sempre.