Acabo de ler o texto do meu velho – em tempo de amizade, não em cronologia – amigo Eduardo Sertório, que me suscitou um turbilhão de lembranças.
Outros tempos, que talvez os mais novos tenham alguma dificuldade em visualizar.
O padrão da educação, oferecida pelas escolas públicas de nível médio e secundário, oferecia, naquela época, níveis de excelência. Não raro, mesmo aqueles cujas famílias podiam pagar por colégios particulares, ao chegar ao ginásio, preferiam a rede estadual.
Havia algumas escolas que se destacavam, como o Caetano de Campos, o Roosevelt, o São Paulo, e claro: nosso querido Firmino de Proença. Entrar numa dessas escolas demandava a aprovação em um vestibular eliminatório. E cada uma tinha o seu próprio. Havia até cursinhos preparatórios. Quem conseguisse uma vaga em uma delas era motivo de comemoração pela família toda.
Ao entrar em uma dessas instituições, tínhamos por elas um respeito quase religioso.
Nelas brilhavam não meros professores, mas mestres, que nos deixaram indeléveis a marca de nossa passagem por seus cursos.
Nicolau Carone foi um deles, e sem qualquer sombra de dúvida, o mais brilhante de todos. Antes mesmo de sequer ter feito o tal "vestibular", todos que pretendiam entrar no Firmino já conheciam sua fama.
Na primeira aula, como bem lembra Duda, sempre na sua sala, ao contrário dos outros professores que se deslocavam entre as classes, formava-se lá fora uma fila, aguardando a permissão para a entrada.
Em silêncio profundo…
Todos aguardando, num misto de ansiedade e respeito, como se prestes a começar uma cerimônia de iniciação.
Como lembra bem Duda, ele nos recebia um por um. Lia-nos um a um nossas almas, indicando o nosso lugar destinado, sempre com um misto de severidade e carinho que iríamos conhecer tão bem pelos próximos anos.
Sempre com alguns rompantes de um humor cáustico, executado com teatralidade, quando descobria detalhes de alguém:
– Você é irmão de quem?!! Eu sabia!…Mais um louco na minha sala…
Todos ríamos, desanuviados, até que um simples olhar dele restabelecesse o silêncio.
Ficamos pouco naquela sala nesse primeiro dia. Ele logo nos leou para fora, para um canto do jardim, para nos dar a primeira lição: como se aponta um lápis de desenho (lapiseiras naquele tempo não existiam). Ele nos prescrevia: usar a gillete valete, mais resistente e duradoura que as lâminas de barbear que se usava então. Comprava-se nas papelarias em volta do colégio. Tinham uma pequena capa, que presa num dos campos girava e fechava a lâmina, que tinha corte só de um lado.
Com elas em punho, éramos ensinados a desbastar a madeira dos lápis. Sempre num ângulo bem agudo, culminando numa grafite de mais de um centímetro de comprimento, que terminava numa ponta fina e penetrante como uma adaga.
Aprendido isso, ele iniciava a nos ensinar como ter a habilidade de usar essas tênues grafites, com a suavidade necessária para que não se quebrassem.
Era apenas o início. De anos de um inesquecível aprendizado de desenho e artes.
E de vida…
PS: Duda, só uma correção: o lápis que ele exigia era o Lótus 2 e ½. Se te pegasse com um mero número 2…
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