A Bela do Jardim São Paulo

O prédio continua lá! Simples e humilde com sua entrada em rampa descendente ao lado direito; ainda ostentando o piso irregular e suas paredes caiadas. Para quem passa na Av. Leoncio de Magalhães é apenas mais um prédio antigo, de arquitetura decadente, daqueles muitos que eram erguidos sem muita preocupação com a beleza nem de tamanho, no máximo 3 ou 4 andares, sem elevadores, apenas com escada.
Hoje a avenida em que se situa, em muitos pontos, ainda é a mesma, mas começa a ser tomada por grande edifícios, com seus apartamentos com terraços e suas janelas com vidros escuros.

Mas ele continua lá, como um lembrete ou como a perpetuar no tempo voraz, uma época já morta e por muitos esquecida. Poucos saberão que era ali, descendo aquela rampa e virando a esquerda, num quase subsolo do prédio, num modestíssimo apartamento, no qual morava, no final dos anos sessenta, a menina mais bonita do Jardim São Paulo: Edna M. C.!

Não foi minha namorada, mas de outros com os quais a via passar. É verdade que foi inútil tentar esconder o avassalador amor que eu sentia, e eu me contentava e me sentia feliz até quando ela conversava um pouco comigo ou mesmo às vezes (felicidade extrema!) me convidava para ir com ela até sua casa.

Foi lá que um dia a vi tirar de uma sacola uma calça Lee novinha, grande, ainda sem ajustar, jogar no chão, em seguida derrubar por cima um balde d´água, jogar sabão e com uma vassoura de piaçava começar a esfregar com força… Foi muito legal, ela queria usar, mas só depois de estar desbotada. E depois, vestida por ela, foi a beleza emoldurada.

Eu a amava mesmo antes de entender o que era o amor. Não importava pra mim se ela namorava com outros… Um dia, depois de romper com um namorado, consegui dançar com ela uma música lenta, num bailinho em que estávamos. Ela estava muito triste e eu ali com minha musa nos braços, sentindo seu perfume, seus cabelos longos até a cintura, nossa… Fiquei a poucos centímetros de seu belo rosto. Mas nada! Seu amor era de outro e na verdade ela mal me via mesmo estando tão próximo.

Foi também lá em seu simples apartamento que num dia longínquo, faleceu de repente seu Pai! Lembro até hoje… Na missa na Igreja N. Senhora da Salete na R. Dr. Zuqim, ela foi amparada por seu irmão, Marcos, grande pianista, chorando muito. Eu de longe, pra que ninguém visse, também tinha meus olhos marejados por vê-la sofrer tanto, mas não deixei que ela me visse e segui sua saída da igreja de longe, me misturando às pessoas que saiam.

Hoje passados quase 40 anos, vejo pelo Google View o prédio em que morava na avenida e fico imaginando quantas vezes para lá meu coração voou, quantas vezes entrei na sua casa como amigo, mas amando ardentemente.

Que destino terá levada a Bela do Jardim?

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