A fundação de São Paulo acontecida em 1554, teve por finalidade ampliar os limites do território brasileiro além daqueles estabelecidos pelo Tratado de Tordesilhas. E para isso foi necessário conquistar a amizade e a confiança dos índios, sendo o principal deles, o cacique Tibiriçá que tinha duas belas filhas, Bartira e Terebé.<br><br>Foi como jornalista e também ouvinte de Rádio que me entusiasmei por uma crônica lida por Antonio Penteado Mendonça, na Rádio Eldorado, onde ele conta que um irmão jesuíta, o padre Pero Dias, teve que se casar com a filha mais nova do cacique Tibiriçá, cujo nome era Terebé. O cacique teve importância primordial na consolidação da ideia de se estabelecer no Planalto de Piratininga uma vila que serviria de ponto de partida para os bandeirantes rumo ao desconhecido interior brasileiro.<br><br>Para isso, Tibiriçá, que se tornara amigo do português João Ramalho, a quem dera sua filha mais velha, Bartira, em casamento, foi capaz de apaziguar as tribos vizinhas comandadas pelos morubixabas Cayubi e Piquerobi. Assim, bem ao seu modo e dentro dos padrões da ingenuidade que caracteriza o povo indígena, Tibiriçá ajudou Portugal, aceitando inclusive mudar sua tribo de Santo André da Borda do Campo, a pedido de João Ramalho, para se estabelecer em Piratininga e proteger o colégio recém fundado.<br><br>Os jesuítas vieram com a finalidade de catequizar os nativos e, cerca de um ano depois da fundação, o pequeno arraial comandado pelos padres Manoel da Nóbrega e seu noviço José de Anchieta, os religiosos foram sacudidos com a decisão do cacique Tibiriçá de oferecer em casamento sua filha mais nova, Terebé, a um dos padres jesuítas, conhecido como irmão Pero Dias.<br><br>O cacique afeiçoou-se ao padre, como já acontecera com João Ramalho e ofereceu de presente ao amigo sua maior riqueza, a própria filha. "Ao saber das intenções do chefe absoluto dos índios em Piratininga, Pero Dias ficou apavorado. Ele era sacerdote e, como tal, havia feito voto de castidade. Como poderia, então, se casar, mesmo que fosse com a filha de um chefe da importância de Tibiriçá?", questionava Penteado Mendonça em sua crônica radiofônica.<br><br>Havia no colégio treze jesuítas residentes e todos ficaram atônitos, sem saber o que fazer. Como é que um índio entenderia os mecanismos da castidade? Ao mesmo tempo, seria uma desfeita não aceitar uma mulher em casamento e o cacique poderia entender aquilo como ofensa. Se isso acontecesse, todo um trabalho de aproximação, que resultara em benefícios para a coroa portuguesa, iria por água abaixo.<br><br>"Os jesuítas decidiram, então, pedir socorro ao fundador da ordem, ainda vivo, Inácio de Loiola, e enviaram um emissário a Roma", conta Penteado, ressaltando que uma viagem de ida e volta à Europa naqueles idos era algo bastante demorado e a resposta levou algum tempo para chegar. "Os meses passavam, com a indiazinha querendo namorar e o padre fingindo que não era com ele e nada do mensageiro voltar", brincou o cronista.<br><br>Finalmente vem a resposta de Inácio de Loiola, e o grande soldado e diplomata, convertido ao cristianismo, considera que, diante de todas as circunstâncias arguidas, o irmão Pero Dias estava autorizado a se casar com a índia, mas para isso teria que se desligar dos votos de castidade, deixar de ser padre e sair da ordem dos jesuítas, que, para Inácio de Loiola, hoje consagrado santo, era um ato de "extremo sacrifício".<br><br>Era mesmo na época e o irmão Pero Dias rompeu seus votos sem ser excomungado, podendo, assim, casar como leigo sob a benção de Deus.<br><br>Deste modo, tudo voltava aos eixos na primitiva São Paulo de Piratininga e, como João Ramalho, o ex-irmão Pero Dias tornou-se genro de Tibiriçá. Por imposição dos jesuítas.<br><br>Para casar, Terebé precisou ser batizada, recebendo o nome cristão de Maria da Grã e a festa foi uma das maiores que o planalto já vira até então.<br><br>Antonio Penteado Mendonça finaliza sua crônica dizendo que "se de início Pero Dias sentiu algum temor pela vida de casado, este medo passou rapidamente, tanto que, ao ficar viúvo, anos depois, após uma vida em comum que dizem ter sido muito feliz, ele não titubeou e se casou novamente, deixando larga descendência".<br><br>Maria da Grã e Pero Dias viraram nome de rua. Ela no Alto de Pinheiros e ele, em Osasco.<br><br>Agora, aproveitando o espaço que me oferece esta coluna, desejo a meu colega jornalista, advogado e cronista da Rádio Eldorado, Antonio Penteado Mendonça e a todos os leitores deste portal, muitas felicidades no dia do aniversário de São Paulo, afinal são poucas as cidades brasileiras com mais de 457 anos.<br><br>E-mail: [email protected]