Rua Prof. Tranquilli

No dia 10 de outubro de 1928, quando Antonio Augusto Davin, meu bisavô, adquiriu o lote na Travessa Terceira, Freguesia de Villa Marianna, localizado há cinquenta e cinco metros da Rua Loefreguin, não existia o Código de Endereçamento Postal. A Travessa Terceira só tinha mato. Depois ainda foi denominada Rua da Floresta.

Hoje é a totalmente urbanizada Rua Professor Tranquilli, em homenagem ao professor Tranquillo Tranquilli, falecido em 1948, titular de diversas matérias no Colégio São Bento.

Na sala da casa que ocupa o último dos lotes herdados por seus familiares, ainda balança uma cadeira adquirida no dia do meu nascimento, em 1955, para que a dona Maria de Lourdes embalasse seu neto nos últimos dias de vida.

Nessa época, a rua de terra batida já estava com quase toda sua extensão habitada e quase igual ao que é hoje, não fossem dois prédios que roubam a insolação das casas.

Todos vizinhos se conheciam. No lado par ao lado do muro do Hospital Santa Cruz, era casa do Amadeu da venda. Atravessando a Jorge Tibiriçá estava a casa do seu Geraldo, ao lado do último terreno sem construção onde fazíamos guerra de canudos entre os pés de mamona.

Depois vinha a venda do Seu Valdomiro e dona Sophia, a lojinha do Seu Domingos e dona Aurora, as três casas de meus primos Elisa, Aurora e Julinho, a casa da Dona Dolores e seu Nicola – estas quatro demolidas em 2005 para construção de um prédio -, vizinha do seu Manoel pintor, meu avô e pai da Dona Olga, a casa que seria do seu Vitório, a casa do seu Hilário, depois a do Seu Luiz, vizinho do Luiz tintureiro, que morava ao lado do Seu Francisco fotógrafo.

Do outro lado, a oficina do Pedrão, a casa que eu acho a mais bonita da rua e praticamente igual até hoje, na esquina da Rua Manoel de Moraes. A seguir, a dona Maria do 85, a casa do Tiguês, outra oficina mecânica onde é arquivo do hospital; o açougue do Romeu; a casa da dona Julieta, costureira, onde mora o Seu Vitório; a casa da dona Aurora, mãe da Irene, dentista; a casa da Dona Arlete, mãe do Ariel que correu a São Silvestre num ano da década de 60.

Atravessando a Trabiju, havia a casa da dona Emilia, também costureira, esposa do Alcebíades, ao lado da dona Aparecida, outra costureira, mulher do Gino, motorista de praça, como meu pai Pedro, a casa e fábrica de cortiça do Seu Antonio e dona Rosinha, a casa da Dona Clélia e seu Davi – estas três também demolidas, a casa da mãe do Nenê que jogava no Corinthians e finalmente a vendinha do seu João, pai do Maurinho.

A gente sabia até quem eram os cães. O Biju do 239, o Banzé do 238, a Flay do 258. Era necessário prendê-los às pressas para evitar que fossem pegos pela carrocinha que passava "de surpresa" às sextas-feiras.

Na década de 60, brincamos "perigosamente" por uns dias nos buracos onde era instalada a tubulação do esgoto. Era o fim da limpeza das fossas que se escondiam nas calçadas.

Uma grande felicidade. Asfaltaram a rua e podíamos descer de carrinho de rolimã. Se o seu Rômulo estivesse em casa, só da casa dele para baixo, por causa do barulho. Mas se ele não estivesse, era desde o topo da Jorge Tibiriçá até a Loefgreen na frente da vendinha do seu João. Algumas vezes nos esborrachávamos no terreno da dona Irma, esposa do seu Irmo, na Loefgreen.

Quantas vezes assustamos o cavalo do verdureiro que passava duas vezes por semana… E também foi um grande evento a troca das carroças de lixo pelos caminhões.

Na época junina, Dona Aparecida organizava uma fogueira, ao lado do muro, onde hoje há um pé de romã.

A rua tinha seus defeitos. A feira de domingo atrapalhava as brincadeiras. A mesma declividade, tão útil para as velozes corridas de carrinhos, nos obrigava a jogar bolinha de gude e algumas peladas na Trabiju ou Loefgreen, que eram retas.

Falando em futebol, até um poste tinha apelido. O Carlos Alberto, cortado da Copa de 1966, completava o time se faltava um. Lembro que fizemos uma pequena homenagem a ele quando foi o capitão em 1970.

O começo do final desses bons tempos dourados foi em 1972, quando construíram o viaduto sobre o "buracão ou barroquinha" da Loefgreen e os carros começaram a "cortar caminho" por lá.

Nessa época, quatro moleques criados na rua – Cláudio, Luiz Carlos, Hiroshi e eu – todos vestibulandos, nos despedimos da tranquilidade da Tranquilli, com a última pelada na rua.

Nunca mais vi ninguém brincando na rua. Nem meus filhos que cresceram na mesma casa, mas já se mudaram para suas vidas.

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