Paulistaníadas

Para a maioria dos brasileiros que não nos conhece, São Paulo é uma cidade fria, cinzenta, mal humorada. Bobagem; esse anti-marketing é coisa de nossos vizinhos de Estado, quer dizer, uma cariocagem, uma mineiragem, uma gauchagem (nem tão vizinhos assim).

São Paulo tem um tipo de humor diferente, mais contido, mais ou menos comedido e que exige leitura apurada dos interstícios do diálogo ou do texto. Os exemplos são muitos, acontecem a toda hora nos ônibus, nos vagões do metrô, nas ruas, nos trens, nas conversas de elevador, nos botecos do pingado e pão com manteiga na chapa – aquelas conversas cujo desfecho aguça nossa curiosidade, mas a gente nunca fica sabendo o final, suspense hitchckoquiano talvez, porém, fica sempre pra depois, encerramento que acaba nos interessando, mal comparando, um verdadeiro "coitus interruptus"…

As vozes dos paulistanos da gema, com seus sotaques meio italianados, meio acaipirados, se prestam perfeitamente para ser colocadas nas situações mais malucas, mais doidas; vou contar uma que ouvi dentro de um ônibus, bem uns 30 anos passados, 11h da noite, por aí: naquele dia, meu plantão no HC seria das 14 às 22h. Fazia um calor "carnavalesco", um "sór" brabo, daqueles de estourar grão de milho dentro da espiga ainda no pé, e, por causa disso, resolvi que iria trabalhar vestindo o meu uniforme de enfermagem. Dona Odete ainda perguntou:
– Ué! “'Cê” vai trabalhar fantasiado de enfermeiro?
Minha esposa, a D. Odete, é capaz de criar frases sarcásticas que fariam Diógenes chorar de inveja, e talvez até perguntasse: "Posso usar essa frase em meu tratado filosófico?".
– Vou, está muito calor e eu não tenho vontade nenhuma de me trocar naquele vestiário com mais 400 homens. Além do mais, essa roupa é fresquinha, gostosa…
– “'Cêquessabe”. Sua cabeça, sua sentença!
Quarenta anos de casado e até hoje eu não consigo entender como é que as mulheres, com duas palavras, conseguem deixar a gente com um sentimento de culpa tão grande que acaba estragando o resto do dia… Eu já deveria estar acostumado, mas não estou!

Mas, voltemos à vaca do freezer. Naquele dia, trabalhei normalmente até às 19h, aquela correria que era normal na Clínica de Neurologia do HC. Das 19h em diante, eu estava escalado para os banhos, arrumação de camas, limpeza de unidades, etc., etc.! Comecei, então a procurar colchas, lençóis, cobertores, jarras, bacias, sabão líquido, compressas e esponjas para os banhos de leito. Para começar o primeiro banho, fui ao "Maracanã" buscar água quente na jarra de inox (maracanã era o banheirão da Neuro, onde dávamos banho em macas nos pacientes que podiam ser manipulados fora dos leitos), abri uma torneira e a água estava gelada, e outra e outra e outra!

– Enfermeira, não tem água quente?
– Ué, Joaquinzão, você não sabia que o Maluf proibiu o uso das caldeiras à diesel por causa da crise do petróleo?
– Eu sei, mas o que os pacientes tem com isso?
– Nada, ossshh! O Prof. Primo Curti tentou falar com com ele e não conseguiu. Um palhaço, ajudante de ordens dele, disse ao telefone que o governador sentia muito, mas não podia privilegiar ninguém. É um… (Não vou nem colocar as iniciais do palavrão que a linda enfermeira Inalda, uma soteropolitana loira e de olhos azuis proferiu – aliás, palavrão não se diz, palavrões são proferidos – nota da redação).

Foi pelo menos um mês de sofrimento para os pacientes e para nós da enfermagem; acabamos por fazer uma vaca para a compra de gás de botijão, arranjamos um fogão no depósito de sucata do HC e passamos a esquentar água para banho naqueles super caldeirões de alumínio que "emprestamos", sem que ninguém soubesse, da cozinha industrial do hospital.

Um belo dia, alguém muito importante que provavelmente tinha alguém internado no Hospital, se esgoelou todo no rádio, no "O Trabuco" do Vicente Leporace, comentando a situação dos pacientes e da enfermagem. Citou, inclusive o nome do excelentíssimo Sr. governador. Por volta das 13h, os telefones das muitas clínicas tocaram e uma gravação informava que as caldeiras estavam se enchendo e se aquecendo…

Bem, não era nada disso que eu estava pensando em relatar, mas também não vou retirar o que escrevi, dá muito trabalho recomeçar, remendar, melhorar, vocês sabem; vou retomar o fio da meada a partir daqui!

Como já disse um bocado de linhas atrás, fui trabalhar com a “roupitcha” da enfermagem por causa do calor. Dia terrível aquele, banho com água fria nos pacientes e a temperatura caindo vertiginosamente (desculpem o clichê, não aguentei…). Do vitreaux do maracanã, eu olhava o "reloginho" do Itaú na Avenida Paulista marcando 6ºC, 21h30. Pensava "vou congelar no ponto do ônibus, tem jeito não!". Dá 22h, marco meu ponto e saio pro ponto da Rebouças. Instantaneamente começo a tremer e a bater o queixo: vento congelante, garoa fininha. Espero sob o abrigo os ônibus que passam lotados ou não param.

"Oba! Lá vem um ônibus. Deve ser o Campo Limpo". Estava cheio, mas consegui entrar. O motorista desembesta Rebouças abaixo pra pegar o sinal verde. Amarelo, não vai dar! Vermelho! Pé no freio! Freada brusca e violenta! Um amontoado de carne humana é jogado contra os vidros da cabine do motorista! Então, do fundo da alma, a voz sotaqueada, meio caipira, meio italianada, clama, brada aos céus:
– Ei! Seu motorista! Vai ‘cum carma’! ‘Arrespeita nóis, pô’!
E arremata com a frase definitiva, histórica, um Marco Túlio Cícero no púlpito desafiando o próprio Catilina:
– Ser humano também é gente, seu motorista! Tem de ‘arrespeitá nóis’. Eu pago o INPS, minha ‘mulhé’ está ‘misperando’! ‘I sieunumchego’? ‘Cuméquifais’?

O motorista não perdeu a calma; puxou o freio de mão e disse bem alto pra todo mundo ouvir:
– ‘Disafasta’ magote de passageiro! ‘Arrecua’ pra traz ‘sinão’ eu não saio.
– Ah! Sai, sim! Quero ver! ‘Sinumsaí’ eu vou chamar a ‘puliça’ – disse uma senhora esmagada com a cara no vidro, a boca até um pouco torta!
– Saio nada! Eu ‘vô’ abrir a porta e a ‘sinhora’ desce pra ‘chamá’ ‘us guarda’. Vai lá, vai! Vai chamar, vai!
Outra voz:
– Esse motorista é muito ‘forgado’! ‘Tá’ querendo levar uns ‘catufe’ na ‘fisolomia’…

O tempo começou a esquentar dentro do ônibus, apesar da noite gelada. Aproveitei a porta aberta e desci do ônibus sem pagar e comecei a descer a Rebouças em direção à Henrique Schaumann. Vento frio, garoa gelada. Buzina insistente. Olho. Era a Variant branca do Zé do Cavaco, grande músico erudito e popular, Bethoven e Noel Rosa.
– Ô Inácio! Entra aí, malandro! ‘Tá’ indo pro samba nesse frio, com essa roupa?
– Não, Zé. ‘Tô’ indo pra casa. Teve um discreto probleminha dentro do ônibus. ‘Tava’ indo tomar outro ônibus na Avenida Brasil…
– Eu te levo, ‘vamo qui vamo’, juventude!

Em casa, café bem quente pra mim, rabo de galo e cervejinhas pro Zé e conversa que se estendeu por quase duas horas. Era meia noite e lá vai tempo quando o Zé se despediu após falarmos de samba, de carnaval, de sambistas. Inclusive D. Odete foi convidada a emprestar sua voz em dois discos que ele estava produzindo, arranjos e tudo mais, dois LPs: um do Monarco e outro do Nelson Sargento. Por quê? Porque as vozes que comporiam o coro eram esganiçadas, ou metal demais ou veludo demais. A coisa não conjuminavam… Se ela gravou? Gravou, claro, correu tudo na mais perfeita ordem…

Bem, o Zé se despediu e foi embora. D. Odete olhou pra mim com aquela cara que vocês podem imaginar:
– E aí, Inácio? Tudo bem? – disse, com um sorriso de vírgula.
– ‘Tá’!
– Passou frio?
– Claro, Cróvis! E você?
– Eu não! No salão estava quentinho, gostosinho… E se você quiser saber, hoje eu ri feito louca. Só de lembrar começo a rir de novo…
Pra lutar comigo, a Odete tinha montado um Salão de Beleza especializado em cabelos, maquiagem e quejandos para mulheres negras, talvez o primeiro de São Paulo, o Atellier Ouro Preto.
– Riu de quê?
– Uma cliente que de repente começou a chorar! Nós fingimos que não tínhamos reparado, mas chegou uma hora que não deu mais. Perguntamos: "Porque você está chorando, menina?". Ela disse: “O meu marido…”. “O que tem seu marido?”. “Ele está nervoso por causa do chefe dele e disse que vamos ficar um tempo sem manter relações!”.

Não deu pra segurar, desandei a rir também e continuei rindo por um bom tempo…

Tomei um banho bem quente, quase fervendo e deitei. A Odete olhou pra mim, rindo:
– ‘Tá’ muito frio! Nem pense em meter relações…
– ‘Tá’ bom, ‘tá’ bom, vê se dorme ‘queu tô’ cansado…

Amigos, por favor desculpem os termos que usei, o ‘palavreadus paulistanicus’, mas o mundo, a verdade, a realidade, é assim mesmo. Ouvidos atentos, mente aberta, o povo fala! Ouçam e aprendam com ele.

Não sou fã do Saramago, que Stalin o tenha em seu berço, acho seus textos um pé na bolsa escrotal, mas, certa vez, ele disse numa entrevista que "não existe uma língua portuguesa, existem muitas línguas portuguesas dentro do português". Concordo! Dentro do Brasil, muitos sotaques, muita regionalidade.

Viva as vozes paulistanas, seus sotaques, suas gírias, viva ‘nóis’, viva tudo, viva o Chico Barrigudo!

E o palhaço quem é? É ladrão de ‘muié’!

Ah, São Paulo,
Comoção da minha vida
Arlequinal…

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