Ontem, minha filha Raquel comentou que estava ficando "velha" (26 anos), pois, durante o dia, havia recordado de um local que já não existe mais, com realismo, uma memória de sua infância.
Disse que era tão real que conseguiu sentir o cheiro e o sabor da lembrança querida, e acrescentou:
– Nossa, já estou dizendo “no meu tempo…”.
Rimos e continuei dizendo que entendia tal sensação, pois, quando jovem e ouvindo minha mãe, também repetindo a frase "no meu tempo…", eu a julgava velha, mas hoje me rendo em reconhecer que, assim como minha filha e minha mãe, cada um no "seu tempo", armazenamos memórias.
Posso iniciar lembrando dos pães doces que minha mãe às vezes comprava do padeiro que passava em frente ao nosso pequeno prédio, sem elevador, na Rua Iperoig nas Perdizes. Era uma charrete e no compartimento em forma quadrada, pintada de verde com letras douradas, armazenava vários tipos de pães cheirosos. Os escolhidos pela minha mãe eram roscas individuais com creme e açúcar cristal por cima.
Até hoje, quando vejo tais iguarias, compro pelo prazer de voltar aquele "tempo", mas nem sempre consigo, assim como hoje, abrir uma lata de leite condensado, despeja-lo numa xícara de café e tentar sentir o prazer doce da mesma façanha feita no "tempo" de criança.
Reconheço que até hoje pratico algumas atividades pelo gostoso ato de emparelhá-la com o já vivido, como andar de bicicleta; e não me envergonho de quando dá, me apropriar de uma balança e nela novamente ir às alturas, sentindo o vento no rosto e o corpo num movimento sincronizado alçar um vôo imaginário.
Outro dia deparei-me com uma amarelinha, já gasta, riscada em um parque. Olhei para os lados com a sensação de aventura e proibido, e me esbaldei em passos saltitantes, ir “do inferno ao céu”, recordando, assim, as competições que eu, meu irmão João e minha irmã Neusa, no quintal do sobrado do Alto da Boa Vista, em Santo Amaro, disputávamos todos os dias.
Outro dia fui com meu pai (hoje, um jovem senhor de 90 anos) até o centro de São Paulo, estávamos no Largo São Francisco e entramos por uma daquelas ruas, hoje calçadões, e, de repente, me vi pequena ao lado de minha mãe, maravilhada com os edifícios e o movimento frenético. Não sei precisar o local, mas, com certeza, no meu tempo era mais bonito.
E-mail: [email protected]